Será que o nosso próximo carnaval vai superar o do século passado?

Isabella Marzolla*

Antes do apocalipse – a pandemia de Covid-19 – assolar o mundo, o Brasil viveu um carnaval dominado por blocos de rua e protestos artísticos em oposição ao governo federal expresso em carros alegóricos nos desfiles das escolas de samba. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, a capital paulista teve o maior carnaval de rua da história. Entre os dias 14 de fevereiro e 1º de março de 2020 foi estimado que 15 milhões de pessoas foram pular carnaval. Foram 575 blocos de rua e 615 desfiles. 

O carnaval é a festa da carne, da catarse, da quebra de decoro, da putaria e de encher a cara, se despir, se entupir de brilho e serpentina. É isso mesmo e não tem quem negue, todo – quase todo – brasileiro gosta. É o nosso orgulho nacional. 

Hoje os sentimentos carnavalescos estão guardados na gaveta e foram substituídos pela saudade, melancolia e desânimo. Somos baqueados diariamente com notícias sobre o alto número de mortes, o desgoverno e a destruição progressiva de fundações e órgãos importantes para a continuidade do bem-estar social. 

Em 2020 as marchinhas serviram para vocalizar a frustração dos críticos e infelizes com o Estado atual. Este ano não tivemos esse privilégio. Como será o carnaval pós- pandemia?

Em 1919 o Brasil gozou de seu primeiro carnaval pós-pandemia, da Gripe Espanhola. O carnaval de 1919 entrou para história como o mais eufórico até então e um marco para a libertinagem sexual típica dos carnavais de hoje. A pandemia da Gripe Espanhola, que aconteceu entre 1918 e 1920 e que, no País acabou a tempo da folia, deixou um saldo de, no mínimo, 50 milhões de mortos, mas devido a imprecisão dos registros na época, alguns artigos apontam para até 100 milhões de vidas perdidas. A Gripe chegou a matar o Presidente eleito em 1918, Rodrigues Alves, antes mesmo de assumir, deixando o cargo para seu vice, Delfim Moreira. 

Os jornais da época, em grande parte os espanhóis, relatavam corpos nas ruas e gente que enterrou os parentes nos quintais, causando colapso do sistema funerário e de saúde. Ao descobrirem que a doença era altamente contagiosa, medidas como as de agora foram impostas. Decretaram-se o fechamento de escolas, igrejas, comércio e repartições públicas em diferentes locais, inclusive no Brasil. Em alguns deles, como nos Estados Unidos, adotou-se o uso de máscaras para reduzir o contágio. Muitos locais incentivaram a população a entrar em quarentena. Um déjà vu dos dias de hoje?

O carnaval de 1919 durou de janeiro a março, o mais longo de todos e a moral popular estava aos pedaços: tinham sobrevivido a Primeira Guerra Mundial e uma das pandemias mais letais. Em suas cabeças a festa representava o começo depois do fim do mundo, de seu apocalipse.

“É natural esse anseio de alegria e de prazer que se nota entre o nosso povo: não tivesse ele a descontar tantos sustos, tantos aborrecimentos, tantas tristezas, que só o carnaval – especialmente para todos os males – poderá curar”, dizia uma reportagem publicada pelo jornal Estadão em fevereiro daquele ano. “A alegria transbordou até altas horas, triunfalmente, como uma enorme vingança da vida imortal contra os horrores que a quiseram escurecer”, apontou outra matéria do jornal, de março. 

Nas palavras de Ruy Castro, autor do prólogo “O carnaval da gripe e da guerra” para o livro Metrópole à Beira-mar (Cia. das Letras, 2019 “Qual era sua atitude naquele carnaval? Você não podia perder, você tinha que brincar como nunca porque poderia ser o último da sua vida. Aí você se jogou na festa, na folia, nos blocos, nos ranchos. Todo mundo. E aquele foi o maior carnaval de todos os tempos”, escreve o jornalista.

Será que o nosso próximo carnaval vai superar o marco catártico do século passado? Estamos todos enlouquecidos, ansiosos, deprimidos e revoltados. Nós que durante a pandemia gozamos de um gênero inaudito de sensações terríveis, pisando o colo altivo de vária e muita dor, arrastando imensas mortes simbólicas e algumas vezes literais, queremos encontrar no próximo carnaval um alento maior que acalme nossos corações. 

Como canta Paulinho da Viola, “Era dia de carnaval/ Carregava uma tristeza/ Não pensava em outro amor/ Quando alguém que não me lembro anunciou / Portela! Portela! / O samba trazendo alvorada/ Meu coração conquistou.

*Jornalista, também escreve no blog Inconsciente Coletivo.