Maria Paula Curto *
O que atrai as novas gerações – minhas filhas incluídas – é um tal de brega funk com dancinhas coreografadas pelo TikTok. Um verdadeiro inferno. Só não sei de que círculo dantesco, mas nessa altura do campeonato, eu já tinha rodado várias circunferências e clamado a Deus que eu iria me redimir dos meus pecados.
É carnaval, é folia e nesse dia ninguém chora
“Aproveite, minha filha, enquanto é tempo”. Essa frase era quase um mantra da minha mãe. Ela vivia repetindo. À época, eu não ligava tanto, achava que era papo de gente velha. Pois é. Agora, creio que envelheci e me peguei falando a mesma coisa para as minhas filhas e seus amiguinhos. Bora aproveitar o Carnaval!!!
Ô abre alas que eu quero passar!
Eu sou da lira não posso negar
Bora nos blocos, com fantasia, cores, glitter e animação! Sem celular, para não correr o risco de furto e buscando alternativas no entorno – para poder ir andando, o que facilita um bocado, vamos combinar – mas com disposição. Disposição essa que a velha aqui já não possui em grande quantidade, mas que consegue resgatar do fundo do baú da nostalgia de carnavalesca que não morre jamais.
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Pois é. Agora, creio que envelheci e me peguei falando a mesma coisa para as minhas filhas e seus amiguinhos. Bora aproveitar o Carnaval!!!Foto: Reprodução.
Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé
O pé até que estava inteiro, mas o joelho e as costas, quanta diferença… Depois de míseros vinte minutos, começa a doer tudo. A gente já não tem mais posição. A lombar sofre. O joelho lembra a você que ele existe. Até o tênis velhinho incomoda. Aliás, tudo passa a incomodar. Aquele cheiro de mijo básico, que vai ficando pelos cantos da cidade, que antes você nem ligava, agora chega a arranhar a garganta. E você, sem se dar conta, faz cara de nojo.
Allah-la-ô ôôô
Mas que calor ôôô
Se faz sol, você derrete em bicas e a sombra azul que você fez com tanto esmero escorre pelo lado da face, transformando aquele rosto sem colágeno (amores, não adianta, passou de uma certa idade o colágeno te abandona para nunca mais retornar, vai por mim) numa representação de um lutador de boxe pós-nocaute. E a sua fadinha vira um zumbi em dois palitos, mas o Halloween é só no final de outubro, amiga…
Ô jardineira por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Aconteceu que não se toca mais marchinha nem samba no Carnaval. O que atrai as novas gerações – minhas filhas incluídas – é um tal de brega funk com dancinhas coreografadas pelo TikTok. Um verdadeiro inferno. Só não sei de que círculo dantesco, mas nessa altura do campeonato, eu já tinha rodado várias circunferências e clamado a Deus que eu iria me redimir dos meus pecados. Pois só de imaginar algo parecido pela eternidade me fez pensar que qualquer penitência em busca de redenção seria melhor. E aquilo já seria uma espécie de autoflagelação preliminar. Talvez no próximo bloco, para acelerar meu processo de julgamento diante d’Ele, eu já deva levar um chicote e alguns grãos de milho dentro de uma joelheira…
Quantos risos, ó quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
E alguns fora dele, em céu aberto. Como eu. O mundo desabando – em alguns lugares, literalmente, de forma trágica e não necessariamente inesperada, infelizmente – e eu lá, tentando esbanjar alegria e mostrar ao mundo que é possível ser feliz no caos. Ok, a gente precisava desse momento de respiro. Desse momento de alegria. Foram dois anos confinados, escondidos atrás de máscaras, com medo do dia seguinte, da pessoa ao lado, de si mesmo. Agora, passou (Passou?). Vamos celebrar, vamos pular, vamos brincar. São só quatro dias. Depois, o ano pode começar.
Se você fosse sincera
Ô ô ô ô Aurora
Veja só que bom que era
Ô ô ô ô Aurora
Se eu fosse sincera, naquele momento, eu sairia correndo dali e voltaria para a paz do meu santo lar (já redimida de alguns pecados, após todo esse martírio carnavalesco), o aconchego da minha cama, tomaria um belo banho e veria um monte de filme em algum streaming da vida. O que aconteceu com a Maria Paula? Aquela, que já desfilou em quatro escolas de samba no mesmo ano, na pista e em cima do carro, descendo e subindo no queijo, agarrada ao Santo Antônio (não, esse queijo não é a iguaria mineira, mas aquele platô redondo que fica nos carros alegóricos e não, eu não fazia nenhuma orgia com o pobre Santo Antônio – de pecados já estou cheia – mas o pequeno mastro de madeira pintada em que os destaques se apoiam para sambar nessas plataformas), já pulou Carnaval em Olinda (a música também não era lá muito variada, confesso pois de hora em hora tocava Vassourinha. Eu já não aguentava mais o “taran raran raran, ta raran raran raran…), Recife e Salvador? O que aconteceu com ela? Envelheceu, claro. Mas com a certeza de que seguiu o conselho de sua sábia mãe e aproveitou e muito, enquanto pôde. E agora, pode reclamar à vontade, ser uma velha bem rabugenta e sorrir por dentro, com a certeza do “dever cumprido”. Com a alma tranquila de quem carrega consigo a alegria de muitos Carnavais passados…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP