O melodrama está em alta. Hamnet: a vida antes de Hamlet, de Chloé Zhao, e Valor Sentimental, de Joachim Trier, atualizam o gênero por caminhos diferentes e estão entre os principais destaques da temporada. 

Fácil de reconhecer por seu caráter essencialmente comunicativo, o melodrama é um gênero comovente, que produz uma identificação muito clara com os personagens — e, sobretudo, com aquilo que eles sentem. Seu ambiente privilegiado é a família, e seus temas recorrentes são as agruras da vida privada, as forças antagônicas que governam as nossas ações, o sofrimento e o autossacrifício. Não há melodrama sem vítimas, assim como não há melodrama sem que as virtudes morais sejam bem distribuídas entre os personagens em torno das vítimas. 

Nascido no teatro do século 18 como expressão da burguesia ascendente, o melodrama ajudou a reorganizar os valores do mundo após a Revolução Francesa, acompanhando a tendência da época à universalidade humana. Daí o pressuposto de que nos identificamos com os personagens: eles sofrem por motivos comuns, capazes de causar dor a qualquer indivíduo em suas relações sociais. Daí também a comunicabilidade do gênero: o melodrama deve falar a todos, sem restrições. 

Para Peter Brooks, notório estudioso do assunto, a expansão do melodrama, no teatro e na literatura do século 19 o transformou em uma forma de imaginário da cultura ocidental, capaz de sintetizar, de maneira versátil, a moralidade cristã e a sensibilidade moderna. 

Essa versatilidade é o que justifica que filmes diferentes como Hamnet e Valor Sentimental sejam herdeiros comuns do melodrama. Desde os curtas-metragens de D. W. Griffith — grande pioneiro do cinema melodramático nos anos 1910 — até os dias de hoje, o melodrama assumiu inúmeras roupagens, sem abdicar de seus elementos estruturantes básicos. 

Os excessos de Hamnet 

Hamnet se serve dos preceitos mais ordinários do cinema melodramático para especular sobre a possível relação entre a morte do único filho homem de William Shakespeare, Hamnet, e a concepção da peça Hamlet. Baseada no romance de Maggie O’Farrell (corroteirista do filme), a narrativa se concentra no relacionamento entre Shakespeare e a esposa, Agnes, desde o momento em que se conhecem até a estreia da obra mais famosa do dramaturgo (vivido por Paul Mescal).

Jessie Buckley (centro) interpreta Agnes, esposa de Shakespeare. Crédito: Agata Grzybowska/© 2025 Focus Features LLC.

Em sentido mais profundo, o filme se constrói como uma reflexão sobre a morte e a experiência do luto no interior de uma família moldada pelos hábitos culturais da Inglaterra elisabetana, no final do século 16. A construção da simbologia da morte é um ponto alto da narrativa, inclusive pelo intrigante misticismo da personagem Agnes, muito bem interpretada por Jessie Buckley. 

O melodrama se impõe no filme com recursos típicos que a diretora Chloé Zhao explora intensamente: a câmera sempre recorre ao close para criar intimidade com os personagens; a música orienta a sensibilidade do espectador, ajustando a ação à tonalidade afetiva desejada; e os diálogos são reduzidos ao essencial, sendo funcionais e óbvios. No melodrama padrão de Hamnet, em regra, o que importa não é a profundidade do texto, mas sim a facilidade com que ele instala situações conflituosas que conduzem ao derramamento de lágrimas. 

Entre numerosos clichês que Zhao emprega sem pudor — a primeira meia hora do filme é um verdadeiro desfile deles —, a sequência final é digna de nota. Ao conjecturar sobre as motivações íntimas de Shakespeare para escrever Hamlet, o filme recria a primeira encenação teatral da peça como uma expiação de culpa do dramaturgo. É interessante observar que, assim, a tragédia se camufla em melodrama pelas mãos de Zhao, numa espécie de sobrecamada semântica que abarca a criação original de Shakespeare e lhe atribui o sentido que a diretora deseja. Nesse processo, a metafísica de Shakespeare cede lugar à lógica da reparação moral e afetiva.

O controle de Valor Sentimental

Em Valor Sentimental, o melodrama assume uma forma mais sofisticada, marcada por um grau de autoconsciência modernista ausente em Hamnet. Joachim Trier evita os excessos e arroubos característicos do gênero, optando por uma mise-en-scène mais distanciada: a câmera raramente se aproxima demais dos atores, o que desloca o nosso envolvimento. Deixamos de ser espectadores projetivos e impulsivos e passamos a observadores mais reflexivos. A emoção não desaparece, mas é mediada. Ainda nos emocionamos, mas de outra maneira — menos pela identificação imediata com o sofrimento e mais pela consciência dos gestos, das máscaras e das formas sociais que o organizam. 

O enredo do filme é simples e típico do melodrama, e também nos apresenta a um pai que elabora o sentimento de fracasso por meio da criação artística. Após anos de conflitos conjugais, uma família se dissolve: o pai, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), vai embora e deixa a casa para a mãe e as duas filhas. Passa muito tempo afastado. Com a morte da ex-mulher, ele retorna e busca contato. O dado decisivo é que Gustav é cineasta, e seu plano de reconciliação é usar a antiga casa como cenário para filmar um roteiro baseado na própria família — sobretudo na vida da filha mais problemática, a atriz de teatro Nora Borg (Renate Reinsve). 

O filme dentro do filme é um célebre recurso modernista que Trier emprega para falar da sublimação dos Borg pela arte, mas pode ser lido também como uma reflexão sobre as práticas sociais liminares, ou seja, rituais que podem suspender a nossa identidade temporariamente e nos transformar em outros — como o que ocorre com os atores nos palcos. A fronteira que separa o eu e o outro é um grande tema em Valor Sentimental.

Foto: Retrato Filmes/Divulgação

É por isso que o filme começa com Nora Borg em uma crise de pânico minutos antes de subir ao palco. Quando a peça finalmente começa, após a insistência da equipe para que Nora não desista, ela se transforma completamente. Este é um momento fundamental do filme, que expõe, já nos primeiros minutos, toda a teatralidade do melodrama, bem como a proposta de Joachim Trier para lidar com ela. O diretor não se interessa pelo desespero profundo dos seus personagens. O desespero está presente, mas fica melhor nos bastidores, como a crise de Nora na cena inicial do filme. 

Em Valor Sentimental interessa muito mais o jogo das aparências, a possibilidade de resolver as nossas dores por meio da representação social delas. Diferentemente de Hamnet, que filma a morte para que o espectador se despedace por dentro, o filme de Trier prefere filmar o velório, porque quer entender os ajustes que fazemos para dar conta de viver em meio a tanto sofrimento. De certo modo, é um antimelodrama que depende das regras do melodrama para existir — no mesmo sentido que um anticlímax depende de uma estrutura narrativa com expectativas e gratificações, para conseguir frustrar o espectador. 

A moralidade do gênero 

Tanto em Hamnet como em Valor Sentimental, o melodrama promove um ajuste necessário para que, apesar de tudo, as famílias resistam. A família é o espaço afetivo que vale como refúgio e condição da segurança psíquica, em contraste com um mundo perturbador e corruptível. É por isso que o dramaturgo que sai da pequena vila para fazer carreira em Londres se equivale ao cineasta que se separa da mulher e deixa a própria casa para ela. Nos filmes, os dois precisam expiar as suas culpas. Mas eles são culpados de quê? 

Quando a família se torna disfuncional nos melodramas, toda a estrutura da vida entra em ruína. A culpa de William Shakespeare e Gustav Borg não é a de terem sido pais irresponsáveis que causaram mal aos filhos. Eles são culpados de terem abalado o núcleo familiar com ações egoístas, e assim desestabilizado a ordem natural das coisas. A esposa Agnes e a filha Nora são as suas vítimas nesse grande teatro de reconciliação, que, ao final, perdoa os dois personagens porque eles são, ao seu próprio modo, pais amorosos e sensíveis. 

A exaltação melodramática das virtudes opera também no sentido inverso — punindo a vilania —, e não se restringe aos protagonistas masculinos. Em Hamnet, Agnes recebe o panfleto que divulga a peça Hamlet das mãos de Joan Hathaway (Justine Mitchell). O gesto é uma afronta da madrasta, mas Agnes a coloca em seu devido lugar, dizendo que a rancorosa e violenta Joan não é digna de consideração. Em Valor Sentimental, depois de desistir de atuar no papel que caberia a Nora no filme de Gustav, Rachel Kemp (Elle Fanning) recebe um franco elogio do cineasta: “Você é uma boa pessoa, pois poderia ter simplesmente ido embora”. A fala estabelece um contraste entre Rachel e o próprio Gustav no seu passado familiar, separando claramente o certo e o errado, o bem e o mal, a boa e a má índole. 

Essas cenas funcionam como arremates exemplares para o sentido moral dessas personagens secundárias. O importante, aqui, é que a moralidade dê o tom para as cenas, informando-nos o modo certo de julgar Joan ou Rachel. Como observa Jean-Marie Thomasseau, outro grande estudioso do melodrama, o julgamento emocionado do público seria capaz de nos transformar em pessoas melhores. O melodrama educa. Charles Nodier chegava a dizer que a baixa da criminalidade na França do século 19 devia-se ao sucesso das peças de Pixérécourt. 

Embora empreguem o melodrama por caminhos tão diversos, Hamnet e Valor Sentimental se referem ao mundo como um grande palco em que o convívio social é regulado a partir das ações individuais certas ou erradas, o que mantém a centralidade do indivíduo — essa grande invenção da era burguesa — como um fato consolidado. Por isso, eles dependem igualmente do sistema moral que o gênero sempre usou para representar a realidade. O sucesso de ambos sinaliza que o projeto estético do melodrama segue vivo e próspero, ainda longe de se esgotar. 


Rodrigo Cássio Oliveira é crítico e professor de cinema da Universidade Federal de Goiás. Autor dos livros Filmes do Brasil Secreto (Ed. da UFG) e Razão em Transe: o barroco e o cinema de Glauber Rocha (Editora Fi).

O post ‘Hamnet’ e ‘Valor Sentimental’: a força duradoura do melodrama apareceu primeiro em Estado da Arte.