Abaixo vão trechos de poemas de Wislawa Szymborska, minha companheira numa viagem em outubro de 2011 para o Nordeste, na tradução de Regina Przybycien. Selecionei passagens de que gostei muito, uma para cada dia da semana.
PARA O DOMINGO: “Museu”
“Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezento anos.
Há um leque –onde os rubores?
Há espada– onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.
Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias (…)
A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a uva.
A bota direita derrotou a perna.
Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
Como ele adoraria sobreviver!”
PARA A SEGUNDA: “A alegria da escrita”
“Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vou beber da água escrita
que lhe copie o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio–também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra bosque originou (…)
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída (…)
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser (…)
Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?
A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal.”
PARA A TERÇA: “A vida na hora”
“(…) Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humihante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado–
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo–pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores) (…)
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”
PARA A QUARTA: “Utopia”
“(…)Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.
Nao há estradas senão as de chegada.
Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.
Cresce aqui a árvore da Suposição Justa
de galhos desenredados desde antanho.
A Árovre do Entendimento, fascinantemente simples
junto a fonte que se chama Ah, Então É Isso.
Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista
do Vale da Evidência (…)
Domina o vale a Inabalável Certeza.
Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.
Apesar dos encantos a Ilha é deserta
e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias
se voltam sem exceção para o mar (…)”
PARA A QUINTA: “Torturas”
“Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo sangue,
tem uma boa reserva de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.
Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo,
as torturas são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .
Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo a escala e registro sempiternos(…)”
PARA A SEXTA: “Opinião sobre a pornografia”
“Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.
Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear ndecente de temas delicados,
a desova das idéias–é disso que eles gostam.
À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triangulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)
Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória (…)
É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”
PARA O SÁBADO: “As três palavras mais estranhas”
“Quando pronuncio a palavra FUTURO
a primeira sílaba já se perde no passado.
Quando pronuncio a palavra SILÊNCIO
suprimo-o.
Quando pronuncio a palavra NADA
crio algo que não cabe em nenhum ser”.
E PARA ALGUM DIA QUE NÃO HÁ: “Gato num apartamento vazio”
“Morrer–isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece meido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.
Ouvem-se passos na escada
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.
Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repent desapareceu
e teima em não aparecer (…)
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos (…)
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas (…)”








