(resenha-homenagem publicada em  A TRIBUNA de Santos 02 de fevereiro de 2010)

“…fico imaginando uma porção de garotinhos num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto –quer dizer, ninguém grande— a não ser eu. E estou na beirada de um precipício louco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho de agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se eles estiverem correndo sem olhar para onde estão indo, eu tenho que sair de algum canto e agarrar eles. Só isso que ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio”.

     O meu leitor habitual  me perdoará, espero, a interrupção do comentário a respeito de  Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de  Lobo Antunes (na verdade,  ia fazer um paralelo entre a obra dele e a de Saramago, na última década,  como os grandes mestres da atual ficção de língua portuguesa) para homenagear J.D.Salinger, cuja morte teve grande repercussão na semana passada e que criou esse artefato raro, o livro-ícone, pop, cult, o que se quiser dizer, e que é ao mesmo tempo uma grande obra literária: O apanhador no campo de centeio (1951), um dos textos mais famosos e influentes do século XX, e em todos os níveis da cultura.

Quem viu o filme Teoria da Conspiração lembra que o personagem de Mel Gibson era um assassino criado por experiências de laboratório e que se desgarrava dos seus mentores; no entanto, havia nele a compulsão (incutida) de comprar exemplares do livro de Salinger, permitindo assim que o pudessem localizar. E esse é apenas um exemplo da constante presença no imaginário da nossa época da história de Holden Caufield, onde pela primeira vez se deu uma voz convincente a uma figura que ficava numa espécie de “limbo” entre os personagens da ficção: o adolescente.

Muito admirado, muito atacado e esnobado, O apanhador no campo de centeio transformou o esquivo Salinger num guru, e isso acarretou dois efeitos negativos: obrigou o autor a encerrar prematuramente sua carreira, com apenas quatro livros publicados (seu último livro apareceu em 1963,  e depois ele só publicou mais um conto, em 1965), e se tornar um recluso mítico e assediado, até sua morte aos 91 anos; pior ainda, obscureceu o resto da sua obra, num grave prejuízo para a literatura.

Pois se com o frescor da sua linguagem, o mais famoso texto de Salinger é uma obra carismática, sua obra-prima com certeza é a coletânea Nove Estórias (1953), que eu sempre chamo de as jóias da coroa salingeriana. São oito contos maravilhosos (não aprecio o nono,  “Teddy”, porque já tem aquele pé na auto-ajuda e no misticismo, que ficarão cada vez mais acentuados em sua produção posterior, porém é uma questão de gosto). Aí aparecem pela primeira vez os membros da singular família Glass, criada como contraponto ao materialismo do “american way of life”: sete irmãos, sendo Seymour, o visionário, o poeta, quase um santo. Ele surge no extraordinário conto “Um dia ideal para os peixes-banana”, e alguns de seus irmãos nos contos “Tio Wiggily em Connecticut” e “Lá embaixo, no bote” ,  mas os meus preferidos no livro são “O gargalhada”, com aquele tema essencial da ficção americana, a perda da inocência, “Pouco antes da guerra com os esquimós” e “A Fase Azul de De Daumier-Smith”, que entram em qualquer antologia sensata dos melhores contos de todos os tempos.

Nesses dois livros iniciais, temos uma visão muito clara do desamparo diante do mundo adulto e das escolhas que oferece (ou impõe), com a fixação na idéia de realização, sucesso e certezas monolíticas, o precipício no campo de centeio que Holden imagina, vendo-se como uma barreira para a imolação de futuras vítimas, num devaneio que muitos acham pueril, mas que é, no fundo, extremamente pungente.

O restante da obra de Salinger é perturbador e problemático: ele continuou sendo um mestre da narrativa e do diálogo (e no retrato de uma determinada faixa sofisticada de Manhattan e da Nova Inglaterra) em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira  e Franny (1955), além de fazer experiências formais maravilhosas, como em Seymour, uma apresentação (1959), um dos textos mais radicais já escritos. Porém, seu apego pelo místico, pela disciplina do “zen”, e sua idealização da figura de Seymour Glass, prejudicaram muito o equilíbrio dessa última fase, especialmente  a última obra citada e  Zooey (1958), dando munição a seus detratores. São as peculiaridades e estranhezas do talento supremo, que nunca agradará a todos, mesmo. E  por isso, ele foi único.