Quando eu tinha uns 14 anos, tive o prazer de assistir ao filme A Vida Secreta das Abelhas, estrelado por Dakota Fanning e Queen Latifah. Não faz muito tempo que descobri ser uma adaptação de um livro de uma autora que gosto muito, Sue Monk Kidd, que também escreveu A Invenção das Asas. Não sei se o livro A Vida Secreta das Abelhas é realmente tudo o que eu falo, mas eu tenho um carinho enorme por ele e gostaria de compartilhar meus sentimentos com vocês.
A história de Lily Owens se passa da década de 60, na Carolina do Sul, época em que o Movimento pelos Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos estava no auge. Essa é uma informação valiosa, pois Lily só consegue sair da sua vida miserável com o pai não fosse sua babá, Rosaleen, que é negra e decidiu se registrar para votar assim que o presidente assinou a lei que garantia seus direitos civis. Obviamente não seria uma tarefa fácil num estado extremamente racista, então as duas se meteram em uma baita confusão e foram presas.
Lily, obviamente, é solta, enquanto Rosaleen fica na cadeia. A menina não aceita tamanha injustiça e, como não tem o apoio do pai (e teve a pior briga de todas com ele) — prefiro nem expressar em palavras o ódio que eu sinto por esse babaca —, resolve fugir, levando a babá consigo após enganar um policial. Então, ambas seguem em direção a Tiburon, uma cidade que provavelmente lhe dará respostas sobre sua mãe, que morreu em um trágico incidente quando Lily ainda era praticamente um bebê.
Em Tiburon, Lily e Rosaleen são acolhidas pelas irmãs Boatwright, August, May e June. Desde o início do livro as abelhas rondam a história, mas é a partir desse ponto que começamos a entender o protagonismo delas. August cria abelhas, é do mel, da cera, que ela tira o seu sustento. Lily se torna a pupila de August, que ensina tudo o que sabe para a menina, que parece ter um talento nato para tratar as abelhas. É só ao lado das irmãs Boatwright que Lily e Rosaleen entendem o que é ter uma família.
A Vida Secreta das Abelhas não é só um livro sobre amor, de uma forma geral. Ele é carregado de mensagens e reflexões, principalmente sobre racismo. Os Estados Unidos eram racistas e são até hoje. Inclusive me veio a lembrança aquele livro, A Resposta — foi adaptado para os cinemas com o nome Histórias Cruzadas —, que também fala sobre negros durante o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, onde ainda existia muita discriminação e segregação racial. Esse tipo de livro mexe muito comigo, porque é real e eu infelizmente não posso mudar o que aconteceu, mesmo tendo a consciência que tenho hoje.
Temas como problemas psicológicos e fé também são retratados aqui de maneira bem forte. May vive em um mundo inteiramente dela e toma as dores do Universo de forma intensa e inexplicável. Isso faz com que ela viva deprimida em um nível difícil de inferir. Gostei da personagem e do peso dela para a história, porque ela é extremamente real. Além disso, fiquei muito admirada e emocionada com a forma que Monk Kidd conduziu a questão da fé aqui nesse livro. Vocês já perceberam que sempre que pensamos em Maria e Jesus, logo vem aquela imagem de dois seres brancos de olhos azuis? Pois para August, May e June, que têm uma religião própria, Maria é negra, o que, para mim, é a imagem real da Virgem. Fiquei muito feliz e emocionada por isso, e tenho certeza que é esse o motivo que faz eu amar tanto A Vida Secreta das Abelhas.
Não é uma história fofa, se é o que vocês estão procurando. É triste e pesada, para falar a verdade. Mas eu amo e indico porque me trouxe um ensinamento que vou carregar para sempre no meu coração: é impossível a gente apagar o passado, mas podemos aprender com ele para seguirmos com a nossa vida em paz.
Autora: Sue Monk Kidd
Páginas: 232
Tradução: Maria Ignez Duque Estrada
Editora: Paralela
Livro recebido em parceria com a editora
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