Quando eu era pequeno, no fim das manhãs de sábado ficava à janela, na rua Miguel Couto, esperando minha mãe chegar da feira. 

E lá vinha ela, a bolsa ao ombro, uma sacola de verduras e legumes na mão. Alguns passos atrás, vinha o chapeado, trazendo na cabeça um balaio que oscilava para cima e para baixo a cada passo. 

Quando a feira vinha muito pesada ele andava mais ligeirinho, as pernas meio flexionadas, a espinha reta, acelerando ao chegar perto de casa, como se dissesse: “Tá no finzinho... Tá já chegando...”

Do outro lado da rua, o dia inteiro, eu via os chapeados que descarregavam algodão no armazém de Araújo Rique. Eram negros imensos, com tórax de barril e cada rebolo de braço maior que o do Superman. 

Almoçavam sentados no meio-fio ou nos fardos de algodão, com o prato na mão esquerda e uma colher na direita; um prato daqueles teria me alimentado por uma semana. 

Reencontrei-os anos depois quando morei na Padre Ibiapina, e eles passavam o dia carregando e descarregando o açúcar de Artur Freire.

Os chapeados da feira tinham um detalhe que me fascinava: era uma meia bola de futebol, cortada, colocada sobre a cabeça como se fosse uma touca, para apoiar a rodilha. Eu admirava sua força física, admirava o profissionalismo que os fazia seguir a patroa feira-acima-feira-abaixo, sem reclamar. 

Quando chegavam em casa, ele arriava o balaio, sentava no batente que separava a cozinha do quintal, abanava-se, arquejante. Minha mãe servia água, servia um almoço, pagava, conversava, comentava a feira, o custo de vida. Ele almoçava e partia, balaio vazio às costas, para faturar mais um.

É deles que me lembro quando passo hoje diante das academias modernas. Vejo aqueles sujeitos rodeados de “equipamentos atléticos de última geração”, esfalfando-se pra perder barriga e ganhar músculos. 

Eu nunca me preocupei com músculos. Faço minha caminhadazinha periódica pensando em como estarão meus pulmões e meu coração daqui a 30 anos. O pessoal moderno quer ter físico de chapeado, quer o rebolo de braço, quer “o peitoral definido”, como dizem os canais de ginástica na TV a cabo, mas o que me chama a atenção é o absoluto desaproveitamento de tanto esforço físico. 

Eles correm horas seguidas em esteiras que não saem do canto. Passam manhãs puxando pra cima e pra baixo um peso enorme que “não inflói nem contribói”. Todo aquele imenso sacrifício serve apenas para torná-los bonitões, parrudos, “He-Men”.

Imagine só se a gente conseguisse convencer esse pessoal a usar de maneira mais produtiva tanta dedicação, tanto estoicismo. 

Carregando balaios de feira. Assentando tijolo em prédio. Descarregando contêineres em Cabedelo. Arrastando-cobra-pros-pés com uma enxada em plantações rurais. Limpando mato. Demolindo prédios condenados. 

Todos lucraríamos, porque eles ficariam atletões do mesmo jeito (com a vantagem adicional de pegar um bronze ao meio-dia), e o motor do Brasil talvez conseguisse pegar, mesmo no tranco.