Sempre admirei muito o trabalho de Fernanda Montenegro como atriz. Ficava pensando como podia existir nesse mundo uma pessoa tão talentosa quanto ela, capaz de dar vida à personagens inimagináveis — inclusive fico impressionada até hoje com Mercedes, uma mulher mística e curandeira que a artista interpretou na novela O Outro Lado do Paraíso. Mas gente, após a leitura de Prólogo, Ato, Epílogo eu posso dizer com certeza que Fernanda é uma mulher maravilhosa em todos os sentidos.
O livro, divido em três partes — Prólogo, Ato e Epílogo, obviamente —, é uma autobiografia de Fernanda Montenegro. Para entender quem ela é e suas origens, a autora achou de extrema importância conhecermos a história dos seus antepassados, imigrantes italianos e lavradores portugueses. Então ela narra com maestria como a família dos seus avós paternos e maternos chegaram aqui, se encontraram e deram origem ao seu núcleo familiar. Inclusive, foi só nessa parte que descobri que, na verdade, Fernanda Montenegro se chama Arlette Pinheiro da Silva Torres. Gostei muito dessa parte inicial, porque eu adoro mesmo conhecer as raízes das pessoas.
Porém, para os fãs das obras de Fernanda, a parte mais interessante será o Ato. É aqui que ela conta sua trajetória artística, que começou bem cedo na Rádio MEC. Inclusive, é aqui que nasce Fernanda Montenegro — a Arlette permanecia apenas em seu ambiente familiar. O Ato é o trecho mais longo de toda narrativa, até porque a carreira da artista é bastante extensa, mas também é aqui que acompanhamos seu romance com Fernando Torres, as lutas, a pobreza — que provavelmente poucos imaginam que aconteceu com eles —, os problemas na gravidez de seus dois filhos, a dificuldade de criar dois filhos nesse meio artístico conturbado... E, é claro, sua vida como atriz de teatro.
Foi só com Prólogo, Ato, Epílogo que me atentei que a verdadeira paixão da Fernanda Montenegro é o teatro. Só descobri isso porque ela pouco fala sobre seus trabalhos no cinema e na televisão, salvo alguns mais marcantes, como Central do Brasil, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. E confesso que fiquei um tanto decepcionada, porque eu queria muito ouvir com o mesmo nível de detalhamento que ela fala sobre sua carreira no teatro, o que ela tinha para dizer sobre suas atuações nas telas. Mas, é claro, foram expectativas que eu criei, a autora não tem nada a ver com isso, rs.
Aliás, Fernanda fala muito sobre o contexto histórico brasileiro justamente por causa dessa narrativa focada no teatro, já que a política afeta diretamente a arte. É muito interessante, porque durante os seus quase 100 anos de idade, ela pode presenciar vários presidentes no poder: Getúlio Vargas, Sarney, Collor, FHC... E ela faz questão de deixar sua opinião política bem clara. Aliás, ela também passou pela censura durante a ditadura militar brasileira, período muito triste para nossos artistas e, obviamente, para a população no geral.
Sigo impressionada com essa mulher, com suas memórias tão ricas em detalhes, com a forma delicada que narrou até os episódios mais trágicos da sua história... Então, sim, apesar de ser uma biografia, gênero que demanda um pouco mais de tempo e atenção, Prólogo, Ato, Epílogo é uma leitura leve e descontraída. Enquanto lia, tinha a sensação de estar ouvindo a voz da própria Fernanda Montenegro na minha cabeça, e poucas vezes senti isso na vida ao ler memórias de uma pessoa.
O Epílogo é a cereja do bolo, com reflexões sobre o passado e esperanças para o futuro. Afinal, uma pessoa que viveu quase 100 anos e ainda tem muitos anos pela frente não pode simplesmente colocar um ponto final em sua biografia.
Título Original: Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias ✦ Autora: Fernanda Montenegro
Páginas: 342 ✦ Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora
