Eu sei que nem todas as pessoas têm um agente funerário preferido. Na verdade, muitas delas nem devem conhecer um agente funerário (como diria o senhor Omar "trágico, seu Julius"), e algumas inclusive estão se perguntando os motivos de terem chegado até esse post.
Caitlin Doughty, é escritora e youtuber, mas também pode acrescentar nessa lista que ela é a minha agente funerária preferida de todos os tempos. Por sorte ela veio ao Brasil recentemente e a editora DarkSide (que já havia lançado o sucesso Confissões do Crematório e está lançando Para Toda a Eternidade, ambos de Doughty) convidou seus leitores a participarem de um bate-papo, seguido de uma sessão de autógrafos com a Caitlin, aqui em São Paulo.
Então ontem me dirigi até a Ugra Press, na Rua Augusta, sem muitas expectativas. O caso é que, quando você fala para as pessoas que gostaria de trabalhar com os mortos, você dificilmente vai ouvir empolgação, mas sim um misto de curiosidade e repulsa. Apesar da morte ser inevitável, nossa sociedade criou métodos de esconder os seus mortos, distanciar as pessoas do luto e do que é de fato ter contato com um corpo que passou "dessa para melhor".
Mas nem sempre foi assim! E pode ser que o papel de mudar como a morte é vista em nossa sociedade parta de mim, de você leitor, ou mesmo de Caitlin, que já começou a discutir a cerimônia de despedida de nossos entes queridos, de formas dinâmicas, interessantes e principalmente de um modo leve, como deveria ser.
Se não havia entusiasmo até entrar na galeria onde o evento aconteceria, assim que cheguei lá, já me senti em casa. O medo do julgamento pelo interesse em assuntos um tanto quanto "esquisitos" aos olhos dos outros foi desaparecendo conforme fui observando o público e conversando com os presentes. Muitas pessoas compareceram à Booktour, na verdade, e eu mais uma vez fui positivamente surpreendida, principalmente pelo fato de que a morte mais uma vez nos uniu, e de maneira divertida.
Cerca de 150 pessoas receberam suas senhas para os autógrafos com a Cait, e mais pessoas ainda aguardavam alguma chance de ter contato com a autora. Quando ela entrou no local do bate-papo os brasileiros a receberam com gritos de entusiasmo e Caitlin não deixou por menos. Ela começou dizendo que a nossa maneira de receber as pessoas é bem diferente do que ela está acostumada e que ela estava muito feliz por isso, pelo modo como as pessoas tratavam com gratidão e respeito o seu trabalho (diferentemente dos Estados Unidos, segundo a autora).
A mediadora foi a Raquel Moritz, do Pipoca Musical, que nada mais é que uma das editoras da DarkSide (e cuida da linha DarkLove, onde garimpa autoras incríveis para serem publicadas pela caveirinha), ou seja... foi muito incrível! Mas uma das partes mais legais e memoráveis com certeza foi quando a Raquel perguntou sobre o que é um dia ruim na vida de um agente funerário.
Caitlin se divertiu contando que, um dia desses, um dos corpos que deveriam chegar em sua agência, se perdeu. A companhia aérea enviou o corpo para Washington ao invés de Los Angeles e aí fica a difícil tarefa de acertar as coisas. Ela não podia mentir para a família, eles iriam descobrir de uma maneira ou de outra, então só restava resolver a situação. "Eu liguei para a companhia aérea e eles disseram que tinham preenchido os papéis errados, mas que enviariam o corpo em um voo de graça. Eu gritei e disse 'eu acho bom que vocês enviem esse corpo de graça!'" e riu bastante da situação, que com certeza é algo com o qual nem o público e nem ela estão acostumados.
A conversa seguiu com os fãs fazendo perguntas para a autora, que comentou muito sobre as condições de trabalho das pessoas em agências, as diferenças do sistema funerário brasileiro e americano e também formas de tornar a morte algo sustentável e menos agressivo, sempre com bom humor e muito respeito.
Então os autógrafos começaram e os fãs de Caitlin estavam nervosos e empolgados. Tive a sorte de ser a décima pessoa da fila, pois pude contemplar o local e o modo como as pessoas discutiam um assunto que é tão "proibido".
Ao chegar na frente da Caitlin pensei no que eu poderia dizer que fosse legal, contasse um pouco sobre mim e também fosse meio único. Resolvi que seria interessante explicar que, como trabalho com coreanos e a hallyu (em tradução literal, onda coreana, que se refere à popularização da cultura sul-coreana) definitivamente seria meio esquisito contar o que eu fiz na quinta-feira à noite, mas que eu gostaria que as pessoas falassem mais sobre o assunto.
Para minha alegria e alívio, antes mesmo que eu pudesse sentar ao seu lado, Caitlin me elogiou bastante e quebrou o gelo. Segui com meu plano e ela me disse "As pessoas no Brasil gostam muito de fazer esse lance do coração nas fotos né?" e eu ri dizendo que sim, e que também faríamos isso, mas de um modo diferente, como os idols coreanos fazem para as fotos. Ensinei ela a fazer o finger heart (o gesto que estamos fazendo na foto) e ela achou o máximo. Resolvemos fazer pose que ídolos coreanos fariam nessa situação e acabamos fazendo todos darem algumas risadas.
Agradeci muito o papel de Caitlin em minha vida e também na nossa sociedade, e saí faceira com meu livro autografado em mãos. Mais uma mulher sensacional que deixou uma marquinha no meu coração!
Mas a Booktour dela não acaba por aí. Os fãs do Rio de Janeiro poderão se encontrar com Caitlin Doughty no dia 18 de junho (próxima terça-feira), às 19h30, no Teatro Solar de Botafogo, na Rua Gen. Polidoro, 180. Se eu fosse você, sinceramente, não perderia. Um beijo, um queijo e... Nos encontramos por aí! 💀


