Título: O Peso da Gravata & Outros Contos
Autor: Menalton Braff
Páginas: 171
Editora: Primavera Editorial
Livro recebido em parceria com a editora
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Há muito tempo eu não lia um livro de contos. Ou melhor: há muito tempo eu não lia um livro de contos que fugia dos finais felizes e das fábulas generosas, que se carregavam nos detalhes de cada história.

Quando eu li o título deste livro, logo imaginei a metáfora contida nas entrelinhas. Então me veio à cabeça a palavra: rotina. Os contos divididos em 18 capítulos tratam disso: da rotina maçante e suas dobras e manobras. Mas a leitura não escorre de forma desgastante. Ao contrário. Os detalhes das cenas, dos personagens, as falas entrelaçadas com a narrativa surpreendem o leitor.

A moça, de calça jeans e blusa de malha, quer descer e pede licença. A blusa azul tem manchas escuras na região das axilas. Ela pede licença e avança enfiando a cara e os braços pelas fissuras entre os passageiros. Pede licença e avança. Um pé, depois o outro, os braços e o corpo. A moça puxa sua mochila que também tem de descer e pede licença. Ela atravessou a cidade e precisa chegar em casa. Tem banho e jantar: o vapor sobe do prato. Ela avança devagar, mas não a vejo mais. Apenas o seu pedido de licença dá existência à moça, de calça jeans e blusa de malha, que quer descer.
O ônibus parou e a moça deve ter descido para enfrentar a aragem da cidade latejante no fim do expediente, porque de sua voz só ficou um eco pedindo licença.
(p. 70)

Há fases que você se identificará com determinado conto. Ou não. O gaúcho Menalton Braff escapa de toda mesmice, e deposita neste primeiro livro publicado pela editora Primavera Editorial uma visão diferente do que cada um passa em sua rotina. Enfrentando dores, angústias, choros, desejos e sentimentos intermináveis.

O Peso da Gravata é mais um livro que te tira da zona de conforto e percorre com a imaginação nas 171 páginas destinadas à outras vidas. De até outros mundos. Há quem não goste de contos, entendo. Mas há aqueles que se permitem a enfrentar — por quê não? — as rotinas perturbadoras dessas tais vidas.