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Se pudermos perdoar o sentimentalismo excessivo, estamos diante de uma obra reveladora do espírito romântico de uma época para qual o retorno não nos é possível no século XXI.
Giovana Proença
O romantismo está morto. Se aceitarmos a proposição, é evidente que a pós-modernidade o matou. Aqui, precisamos estabelecer alguns conceitos. Por romantismo, não pretendemos citar as aclamadas declarações de amor dignas de comédias de Sessão da Tarde, e sim o movimento artístico que irrompeu no século XVIII, pregando a valorização do sentimentalismo e da subjetividade. A publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, romance de Johann Wolfgang Von Goethe é o marco inicial da estética romântica.
Antes de chegar em Werther, é preciso distinguir ainda a própria ideia de modernidade. O fim da Idade Moderna, período de consolidação burguesa, coincide com a eclosão do romantismo. A concepção burguesa de indivíduo, centrada na subjetividade, nos permitiu conhecer grandes obras primas da literatura mundial – Weltliteratur, como alcunhou o próprio Goethe. Contudo, a chegada do Modernismo no início do século XX, acompanhado por ideais pessimistas do fin de siècle, propostos por Marx, Freud e Nietzsche, também traz consigo a crise das relações humanas. Durante o último século, vimos a morte e enterro do romantismo, e é por isso que Os Sofrimentos do Jovem Werther se encaixa mal ao leitor do século XXI.
Longe de definir que a literatura de Goethe deve ser dispensada, ela se torna ainda mais relevante. Com Werther, temos um vislumbre de um tempo que passou, sem possíveis retornos. A globalização colocou um fim aos idílios, como o que o protagonista goethiano vive ao lado de sua amada Charlotte, em um pequeno vilarejo alemão. O formato epistolar confere um charme ao texto intimista, reproduzido com fluidez pela tradução de Maurício Mendonça Cardozo.
O coração do livro, a paixão de Werther, também soa estranha aos leitores atuais. O amor pode ser universal, mas, em terras em que Marilia Mendonça entoa “Supera” nas rádios, o caso do protagonista é visto com estranhamento e até mesmo com desdém. De chato a grudento, muitos adjetivos não lisonjeiros cabem ao jovem Werther. Ele pode até se defender com uma de suas muitas líricas frases “Afinal, o que eu sei, qualquer um é capaz de saber – mas só eu sou portador deste meu coração”. É preciso, então, evitar anacronismos e pensar em Werther como o artista resignado que lê Homero em seus momentos de folga, e ao se ver preso entre formalidades e convenções hipócritas, enxerga na paixão irrefreável o escapismo da condição humana.
Os Sofrimentos do Jovem Werther revela ainda males atemporais como a hipocrisia e a superioridade que a burguesia se confere. O livro é um retrato da alma jovem em busca de sua arte. Werther molda sua identidade envolta em poesia, em meio a um mundo ligado aos interesses econômicos. O artista se vê em luta contra as instituições, inclusive o casamento, que o separa de sua amada, prometida a outro homem. Resta, contudo, a desilusão. O mundo burocrata vence a luta.
Os debates sobre o suicídio, questão espectral que ronda o livro, permanecem atuais. Ao expor suas próprias observações acerca do tema, Werther estabelece um paralelo com as doenças do corpo. De forma surpreendente, as visões do protagonista, ainda que envoltas da idealização romântica da morte, aproximam as ideações suicidas da patologia, como são apreendidas na psiquiatria moderna. O jovem fala a favor do desamparo e da falta de compreensão na humanidade “ninguém mesmo entende o outro tão facilmente”, conclui.
Na introdução à edição, publicada pela Companhia das Letras, Michael Hulse questiona a tese de que Os Sofrimentos do Jovem Werther tenha provocado uma “epidemia” de suicídios passionais na Europa. O impacto do livro é menos assombroso, mas não menos relevante. Se pudermos perdoar o sentimentalismo excessivo, estamos diante de uma obra reveladora do Zeitgeist do século XVII, termo que remete aos românticos alemães e tornou-se mais difundido pela filosofia hegeliana para definir o espírito unificado de uma época. “E quanto a você, boa alma, que também sente como ele esse mesmo ímpeto, faça dos sofrimentos dele o teu lenitivo e deixe que este pequeno livro se torne teu amigo, caso – por sina ou por tua própria culpa – você não consiga encontrar outro mais próximo!”, alerta Goethe. Disque 188 para o Centro de Valorização à Vida (CVV), completamos.
Publicado por Giovana Proença
Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença