No Brasil, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos. Em agosto de 2014, Michael Brown foi morto, aos 18 anos, por um policial branco em Ferguson (Missouri). Ele não portava armas e não possuía antecedentes criminais. O júri decidiu não processar Darren Wilson "porque considerou que não existem provas suficientes para processá-lo pelo assassinato". Seis tiros tiraram a vida de Brown. Em julho do mesmo ano, Eric Garner foi asfixiado por um policial branco por cerca de 15 segundos que foram suficientes para matá-lo. O assassinato aconteceu em Nova Iorque. Eric Garner era negro. O policial que cometeu o crime também foi inocentado pelo júri. 

O Ódio Que Você Semeia foi inspirado na história desses dois jovens, que deram voz ao movimento global Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). O BLM começou nos Estados Unidos, onde ativistas saíam em favor às vítimas da violência policial. Assim como aconteceu com Brown e Garner, Khalil, melhor amigo da protagonista Starr, foi morto à tiros por um policial branco. Starr presenciou tudo. Khalil não estava fazendo nada de errado, não portava armas, era só um adolescente de 16 anos. A partir dessa experiência tão horrível, Starr começa a pensar sobre o que é justiça, se ela realmente existe e, o mais importante, se é válida. 

Nesta história, Angie Thomas aborda vários temas importantes para todo mundo, como racismo, injustiça, lutas diárias, privilégios e muitas outras questões que, sinceramente, precisam ser discutidas. Eu, como pessoa branca, não consigo explicar para nenhum de vocês de forma satisfatória o que foi ler a história de Starr. Quer dizer, meus pais nunca precisaram me ensinar o que fazer se eu fosse parada pela polícia em uma blitz. Eu nunca vi nenhuma pessoa sendo morta. Eu não tenho a mínima ideia de como é o barulho de um tiro. O livro traz, o tempo todo, esse tipo de reflexão e as coisas foram jogadas na minha cara de uma forma que tudo o que eu conseguia pensar é o quão privilegiada sou por não presenciar ou sofrer tanta coisa absurda simplesmente por ser branca, e eu realmente me senti péssima por isso.

Às vezes, você pode fazer tudo certo, e mesmo assim as coisas dão errado. O importante é nunca parar de fazer o certo.

Também somos inseridos no dia a dia de Starr, uma adolescente negra que estuda em um colégio branco, filha de um ex-presidiário que deu a volta por cima. Justamente pelo fato de frequentar um colégio fora do seu bairro, a gente consegue mais do que nunca enxergar o choque de duas realidades totalmente diferentes, opostas. Eu não consigo pensar em outra coisa para falar sobre O Ódio Que Você Semeia a não ser o quanto ele é importante e bom. A história é sensacional e, o melhor de tudo, real. A narrativa é sem comparações. Os personagens são incríveis. Tudo, tudo é digno nesse livro. 

Eu não sei como a história de Khalil e Starr chegará para outras pessoas, mas provavelmente vai ficar na minha cabeça por muito tempo. Cada capítulo me proporcionou uma emoção diferente e é isso o que eu quero sentir sempre que estou lendo um livro. Eu chorei porque é muito difícil saber de todos os meus privilégios enquanto tantas outras pessoas estão em outros lugares sofrendo, vendo pessoas queridas morrerem, sendo julgadas. 

O Ódio Que Você Semeia é um livro difícil, pouco confortável — não digo isso em um sentido pejorativo, e sim porque é uma história extremamente dolorosa —, mas necessário para mostrar que coisas ruins acontecem o tempo todo, mesmo que não aconteçam comigo. Às vezes tudo o que a gente precisa são histórias que nos mostrem a realidade, ainda que não sejam fáceis.

Título Original: The Hate U Give

Autora: Angie Thomas

Páginas: 378

Tradução: Regiane Winarski

Editora: Galera

Livro recebido em parceria com a editora