Carol Barbosa

Crédito da imagem: Neither From Nor Towards, Cornelia Parker, 1992
Gyanendra Pandey, em In defence of the fragment: Writing about Hindu-Muslim Riots in India Today, analisa a historiografia do conflito sectário entre hindus e mulçumanos na Índia. Segundo o historiador, o poder estatal prefere não dissecar a violência cometida nesse período, em parte para não reacender as feridas do passado, mas também porque há poucos documentos comprovando os “fatos”, de acordo com a acepção da historiografia tradicional que aponta a falta de “detalhes concretos” que tenham registrado a brutalidade do período. Parte disso ocorreu justamente com a supressão de evidências pela administração local. Como um dos membros de uma equipe reunida pelo People’s Union for Democratic Rights (PUDR) para investigar a situação em Bhagalpur após a violência sectária de 1989, Pandey defende o uso de outras fontes de investigação.
O historiador discute então como a adoção de um arquivo oficial como fonte primária na historiografia tradicional advém da “adoção de um centro prescrito”, identificado a uma formação estatal ou Estado-Nação. No entanto, para ele, esse material arquivístico é só um “fragmento” da história e, somado a ele, outros “fragmentos” poderiam ser utilizados como “um diário de tecelão, uma coleção de poemas de um poeta desconhecido”. Assim, a versão única do Estado poderia ser contraposta a outras fontes históricas.
Ao pensar na história indiana tendo como ponto principal apenas Délhi, as outras localidades do país são anuladas, assim como a dor e a violência que se perpetua nelas. Esse movimento de apagamento, de acordo com Pandey, homogeneiza a narrativa do país e prioriza um discurso historiográfico totalizante que não se interessa pelas lacunas e tensões presentes no arquivo. Nesse sentido, valorizar o manejo das fontes fragmentárias significa também valorizar as margens, o particular, uma vez que elas não contam apenas a versão dos chefes de estado, dos administradores, mas também dos sujeitos comuns.
Meu encontro com o texto de Pandey se deu após uma citação, encontrada em Cenas da Sujeição, de Saidiya Hartman. A pesquisadora norte-americana reflete sobre as interferências feitas pelos entrevistadores quando lançam mão dessa prática ao se encontrarem com pessoas que vivenciaram violências. Assim, partindo de Pandey e sua experiência como entrevistador em Bhagalpur, Hartman, analisando arquivos com os quais ela mesma trabalha, observa como o procedimento pode ser mobilizado para pensar o momento histórico, mas a partir de uma leitura a contrapelo, pois
A transcrição da voz negra por entrevistadores em sua maioria brancos através da representação grotesca do que eles imaginavam como a fala negra, as questões que moldaram essas entrevistas e o artifício do discurso direto relatado quando, na verdade, essas entrevistas eram relatos não verbais parafraseados, tornam bastante incertas todas as afirmações sobre a representação da intencionalidade ou da consciência dos entrevistados, apesar dos aspectos que nos encorajaram a acreditar que tivemos acesso à voz do subalterno e localizamos, afinal, a verdadeira história.
Para Hartman, portanto, não basta usar esses outros “fragmentos” históricos, mas interrogá-los criticamente. Em Vidas Rebeldes, belos experimentos, a pesquisadora norte-americana também se vale de uma ampla gama de arquivos históricos: entrevistas, registros de cobradores de aluguel, fotografias,transcrições de julgamentos e autos de prisão, por exemplo. A mobilização desses materiais possibilita pensar essas “figuras menores” para além das leis que cerceavam seus passos, da violência cometida contra elas e dos estereótipos negativos que impunham às suas formas de viver, desde que se lance sobre eles um olhar crítico que “elabora, amplia, transpõe e escancara os documentos”.
Assim, Hartman oferece um caminho de escrita historiográfica que faz uso crítico do “fragmento”. Aposta no particular para dialogar com o coletivo, reconhecendo a impossibilidade de recuperar totalmente essas vidas, na contramão do discurso totalizante.