Ao retratar a brutalidade de certas escolhas, autor cria mártir e carrasco em mesmo personagem
Laura Pilan, Especial para Fina
Em Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara, Jude St. Francis enxerga a vida — e a si próprio – em termos matemáticos. O seu axioma favorito é chamado o da ” igualdade” e se trata de uma máxima irredutível em que x sempre é igual a x. Se essa fórmula não pode ser provada e nem contrariada matematicamente — por ser absoluta —, Jude acredita ser capaz de comprová-la com sua própria vida: ele sempre será o produto daquilo que fizeram dele.
Essa é uma posição arriscada para um personagem. No momento em que Jude a assume, ele também escolhe as cores definitivas de sua narrativa: aos seus olhos, tudo é preto ou branco. Neste ponto, Uma Vida Pequena é um romance que discorda de seu protagonista porque se compõe de tons de cinza.
Analisar um personagem como se olha para uma pessoa real é um tratamento arriscado – que muitas vezes conduz uma interpretação ao erro. Mas Jude não nos deixa outra escolha: ele é falho, frágil, ferido – como qualquer um de nós. Tão verdadeiro que é doloroso, tão próximo que se torna palpável: se fecho os olhos e estendo a mão, sinto que poderia tocá-lo com a ponta dos dedos. Inevitavelmente, ele me escapa feito fumaça. E a sensação é a mesma para todos os que fazem parte de sua vida, seja Willem, Harold, Malcom ou JB – não importa. A proximidade e a intimidade fazem Jude recuar como um animal assustado.
Uma Vida Pequena é uma narrativa sobre contrastes e Jude St. Francis parece abrigar todos eles dentro de si. A ausência de autoestima não é um obstáculo para o seu senso brutal de autopreservação – que surge da extrema necessidade e perdura involuntariamente. Ele nunca se sente seguro, nem mesmo quando próximo daqueles que ama. Estar alerta, constantemente esperando pelo próximo golpe, é a sua segunda natureza.
Jude repudia a si mesmo. Contudo, isso não impede que ele atue na vida dos outros com doçura e generosidade. Confunde afeto, carinho e proteção com a versão deturpada e deformada desses sentimentos que experimenta desde criança. Não acredita que é digno de um amor verdadeiro, mas ama cada um dos amigos com todas as forças que tem. A sua dedicação com os outros é o seu maior ato de coragem.
Um homem cindido, uma mente frágil
Jude foi apunhalado, usado e violentado de todas as formas que um ser humano pode ser vítima. Machucado e abandonado com sequelas irreversíveis e uma saúde extremamente comprometida, oscila em uma precária corda bamba de otimismo ingênuo e pessimismo cruel. Ele é o mártir e também o próprio carrasco, mantido como refém por uma mente que está sempre disposta a torturá-lo mais uma vez – as vozes, que ele chama de hienas, estão despertas e prontas para devorá-lo vivo.
Trata-se de um protagonista que não quer ser amado porque não acredita ser digno, de modo a rejeitar aproximações e revelar muito pouco para aqueles que o rodeiam. Teve a sua inocência roubada, mas há pureza no olhar que direciona aos outros: Jude idealiza seus amigos por pensar que não os merece. Perde-se na busca incessante para agradar a todos, entregando partes de si das quais nunca deveria se abster, mas causa danos e prejuízos ao corpo debilitado que possui. A sua visão da realidade está irreversivelmente comprometida, condenando-o a aplicar pesos e medidas equivocadas em todos os seus relacionamentos. Consequentemente, tem uma percepção falsa do que é a violência, o cuidado e o consentimento: esses três elementos se misturam e Jude não é capaz de enxergá-los separadamente.
Por meio não só de Jude St. Francis, mas de Willem Ragnarsson e de outras figuras imperfeitas, Yanagihara cria experiências individuais que se traduzem para o coletivo. Não importa se aos vinte, aos trinta ou aos cinquenta anos, todos somos igualmente confrontados pelas decisões tomadas no passado e atormentados pelas vezes que não tivemos escolha.
A jornada tortuosa que é retratada em Uma Vida Pequena reflete os problemas aos quais a subjetividade contemporânea é submetida diariamente. O romance mostra um indivíduo que teve a chance de escolher como os outros iriam enxergá-lo. O protagonista se agarra a todas as chances de enterrar o passado, disposto a revelar de si somente as facetas que considera aceitáveis e razoáveis. Transforma a própria personalidade em um caleidoscópio, esperando que a luz bata e seja capaz de refletir seus lados satisfatórios e obscurecer o feio, repulsivo e sujo. Willem é o ator, mas é Jude que representa um papel: a performance do eu é um tema central para a compreensão do enredo.
A obra é um romance sobre pontos de vista. O dilema entre o modo como o sujeito se vê e a forma como os outros o enxergam parece uma questão fundamental que quase sobrepõe todas as outras, uma vez que Jude é guiado pela ambição de determinar o que os outros podem conhecer de sua vida – uma existência que é tudo, exceto pequena ou simples. Trata-se da preocupação essencialmente humana de conhecer o que nos define: o passado, a visão que temos de nós mesmos, a persona que criamos para os público ou a pessoa que os outros escolhem enxergar.
A busca pelo banal: ser aceito entre os semelhantes
Acima de tudo, Jude St. Francis almeja a normalidade. Esse objetivo é também seu grande fardo, uma vez que se trata de uma condição tão volúvel que é inatingível: sequer sabemos definir o normal. Tornar-se comum ao ponto de beirar o entediante parece ser um propósito muito pouco interessante. Para o impetuoso JB, que tem sede de atenção e glória, é inaceitável. Mas a chance de ser trivial e ordinário foi retirada a força de Jude. Justamente por isso, ele a persegue. Se a normalidade é o segredo para a felicidade plena ou não, jamais saberemos. Afinal, também somos incapazes de definir o que é ser feliz. Em Uma Vida Pequena, os contornos nunca são tão sólidos.
Ao lado de acontecimentos e problemas banais, Hanya Yanagihara dispõe pessoas absolutamente comuns – com suas conquistas e fracassos inevitáveis da vida adulta – em situações extraordinárias que são tudo, exceto comuns. Não há ninguém que tenha sofrido tanto quanto Jude e poucos obtêm o sucesso como Willem. Suspeito que, através de tantas provações, o romance busque encontrar o limite da natureza humana: quanto um indivíduo pode aguentar até que se quebre?
O romance nos obriga a lidar com o indivíduo estilhaçado e as consequências da sua destruição. Mais uma vez, nos deparamos com uma dificuldade fundamentalmente humana: como lidar com a perda e com o luto que consome? Uma Vida Pequena é um romance que articula as muitas dificuldades que constituem o processo de seguir em frente – inclusive a escolha de não continuar. Quando Yanagihara nos confronta com essa possibilidade, Harold parece ter encontrado a melhor solução: “Não é só por ele ter morrido, ou como morreu; é pelo que morreu acreditando. Por isso tento ser amável com tudo o que vejo, e em tudo que vejo, eu vejo ele”. Essa atitude diante da vida é significativa porque demonstra que deixamos para trás apenas as memórias e impressões que entalhamos no outro. E a impressão que Jude St. Francis deixou é a de uma integridade inquestionável e de uma coragem indiscutível.