Inventei Você? tem como protagonista a jovem Alex que, após ter sido diagnosticada com esquizofrenia, transtorno psicológico que causa alucinações e delírios, precisa estar sempre atenta a tudo aquilo que vê e ouve, para tentar identificar o que é real e o que é apenas fruto de sua mente.
Quando criança, Alex libertou as lagostas de um tanque em um supermercado com a ajuda de um garoto de olhos azuis de quem ela nunca mais ouviu falar. Foi após esse episódio que Alex recebeu o diagnóstico de esquizofrenia. No entanto, a mãe da protagonista lhe contou que, na verdade, Alex nunca libertou lagosta nenhuma e que tudo isso não passava de alucinações.
Anos depois, Alex muda de escola para cursar o último ano do ensino médio. Eis que lá ela conhece um rapaz que tem os mesmos olhos azuis do menino que a ajudou na “libertação das lagostas”. Agora, Alex está em uma batalha interna para tentar compreender o que está acontecendo. Olhos Azuis, como ela o chama, era real ou apenas fruta de sua imaginação? Miles é Olhos Azuis? Como podem ambos ter os mesmos olhos? Para piorar, Miles não é uma pessoa muito agradável e Alex não sabe o que seria pior: Olhos Azuis ter se tornado um idiota ou simplesmente não existir.
Minhas alucinações se tornavam mais frequentes no escuro. Mais de uma vez, quando eu era pequena, ouvi vozes que vinha de baixo da cama, garras que iam subindo pelas beiradas do colchão para me pegar.
Um livro que traz a esquizofrenia em sua sinopse certamente chama a atenção de muitas pessoas. E também chamou a minha. A forma como Alex lida com seu diagnóstico, especialmente as estratégias que criou para tentar identificar o que é real e o que não é, é muito interessante e esses certamente são os melhores momentos do livro.
A protagonista possui alguns interesses bem marcados e um claro delírio de perseguição que, de tão absurdo, chega a ser engraçado. A autora escolheu abordar a doença de forma leve e descontraída na maior parte do livro, o que, apesar de perigoso, acabou dando certo.
A narrativa, os personagens e o enredo de modo geral são bem mais indicados para um público mais jovem do que para o público adulto. E esse foi o ponto que mais me desagradou no livro. Alex e Miles passam boa parte do livro tentando provar um ao outro e para si mesmos que eles se odeiam e, para garantir isso, eles se utilizam de provocações extremamente infantis, como, por exemplo, arrancar todas as capas dos livros ou colar a porta do armário um do outro.
O livro cai em muitos clichês de livros adolescentes, incluindo a menina linda e superpopular que pratica bullying com a protagonista, uma protagonista que, apesar de possuir grande potencial para ser uma personagem forte, é retratada como fraca e desprotegida; o garoto misterioso, que começa sendo um babaca, mas vai, aos poucos, provando ser um cara legal e, claro, a terapeuta que é considerada uma bruxa pela protagonista apesar de não haver nenhum real motivo para isso.
O grande diferencial do livro é, justamente, a esquizofrenia, mas, acho que esse tema acabou ficando em segundo plano para dar lugar às tramas secundárias e à rotina escolar.
Dizem que adolescentes pensam ser imortais, e eu concordo. Mas, acho que existe uma diferença entre pensar que é imortal e saber que pode sobreviver. Pensar que é imortal leva a arrogância, a pensar que você merece o melhor. Sobreviver significa se esforçar pelo que você mais quer, mesmo quando parece fora de seu alcance, mesmo quando tudo está trabalhando contra você. E aí, depois de ter sobrevivido, você supera. E você vive.
Alex, apesar de ser divertida, oscila muito e em determinados momentos não conseguimos ter uma definição clara de quem ela é. Nem ela sabe se ela quer ser a garota forte, a mocinha indefesa, a injustiçada, a rebelde ou a conformada. Ela oscila entre odiar a mãe e ser a filha boazinha, ser madura no que diz respeito ao seu diagnóstico e esconder isso de todo mundo por medo de ser discriminada. Enfim, a personagem não tem uma personalidade clara, o que dificulta a criação de vínculo por parte do leitor. Porém, isso pode ser parcialmente justificado por sua juventude.
Fora o mistério que envolve o Miles e sua possível relação com Olhos Azuis, o livro tenta introduzir novos enigmas para tentar prender o leitor, mas, novamente, é tudo muito infanto-juvenil e nada me deixou realmente interessada.
Todas essas questões não são necessariamente defeitos, mas, foram os aspectos que fizeram o livro não funcionar pra mim. No entanto, tudo isso é justificado pelo fato de a autora ter terminado o livro quando tinha apenas 18 anos. Portanto, se você é mais jovem ou se simplesmente gosta de histórias com temas mais adolescentes, o livro pode funcionar para você.
Enfim, Inventei Você? é um livro que traz uma proposta muito interessante, com grande potencial, mas que se perdeu no meio do caminho e preferiu trabalhar temas adolescentes ao invés de investir em sua premissa que era a esquizofrenia. Mesmo assim, o livro é engraçado, divertido e possui um plot central que consegue nos manter interessados pela história.
Título Original: Made You Up
Autora: Francesca Zappia
Páginas: 346
Tradução: Monique D'Orazio
Editora: Verus
Livro recebido em parceria com a editora
