Começo esse texto como quem abre uma porta. Não exatamente para explicar o que escrevo, mas para me aproximar disso de um outro modo. Talvez também para me aproximar de quem chega aqui. Escrever sobre mim mesma nunca foi um gesto confortável. Há sempre um pequeno deslocamento, um estranhamento inicial, como se eu precisasse me observar de fora, mesmo sabendo que não há fora possível.

Escrever este texto é aceitar esse desconforto como método. Não se trata de falar de mim, mas de tentar entender o que acontece quando escrevo — e o que essa escrita produz em mim como forma de estar no mundo. Esse talvez seja o ponto de partida mais honesto: eu não escrevo sobre o mundo como quem descreve algo externo.

Eu escrevo porque sou atravessada pelo mundo. Para mim, ele não é cenário; é matéria em movimento. Ele me chega pelos olhos, pelo corpo, pela memória, pelos encontros, pelas perdas, pelos sons que persistem mesmo depois que cessam. Escrever é, antes de tudo, lidar com esse excesso.

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Durante muito tempo, disseram — e ainda dizem — que a minha escrita é delicada, íntima, cotidiana. Eu reconheço esses traços. Mas sempre me perguntei o que exatamente significa chamar algo de delicado. Há uma tendência em associar delicadeza à leveza, à ausência de conflito, à suavidade.

No entanto, o que me interessa na delicadeza é outra coisa: sua capacidade de operar deslocamentos quase imperceptíveis, de introduzir fissuras onde tudo parecia estável. A delicadeza, quando penso nela agora, é uma forma de tensão em baixa frequência.

Ela não grita, mas insiste. Ela não rompe de maneira espetacular, mas corrói, desloca, reconfigura. Talvez seja por isso que, muitas vezes, minha escrita pareça pequena à primeira leitura — porque ela não se oferece como evidência, mas como aproximação.

Foi apenas mais recentemente que encontrei uma linguagem capaz de nomear parte disso. Ao ler um estudo sobre minha própria escrita, tive a sensação de que alguém desenhava um mapa que eu mesma percorria sem saber exatamente como descrever. Ali, apareciam ideias como cartografia, processos, conexões, um eu descentrado e diverso. Não como definição, mas como chave.

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Percebo, então, que minha escrita talvez nunca tenha sido sobre dizer quem eu sou, mas sobre experimentar o que posso me tornar. Não há um eu fixo nos textos — há um eu em trânsito. Um eu que se faz nas relações, que se altera nos encontros, que se fragmenta na memória e se recompõe na linguagem.

Escrever, nesse sentido, é uma forma de deslocamento. Não um deslocamento geográfico, necessariamente, mas um deslocamento de percepção. Quando escrevo, algo muda na maneira como vejo. E, ao mudar a maneira como vejo, mudo também a maneira como existo.

Há dias em que isso se dá de forma muito concreta. Um gesto pequeno — alguém atravessando a rua, uma música ao fundo, um cheiro que retorna — pode reorganizar completamente o modo como o mundo se apresenta. Não porque o mundo mudou, mas porque algo em mim se reconfigurou. Escrever é tentar acompanhar essa reconfiguração.

Por isso, o cotidiano nunca me pareceu banal. Ele é, ao contrário, o lugar onde tudo acontece sem anúncio. Não há grandes acontecimentos, mas há microtransformações contínuas. O cotidiano é um campo de forças discretas. E talvez seja por isso que eu escreva a partir dele: porque é ali que o mundo se torna mais próximo e, ao mesmo tempo, mais estranho.

Quando penso em textos que escrevi, percebo que eles não surgem de uma vontade de narrar o passado, mas de uma necessidade de reorganizar o presente a partir dele. A memória não é arquivo; é operação. Ela não guarda — ela transforma. Ao lembrar, eu não recupero algo intacto; eu recrio, reinterpreto, reinscrevo.

Isso também altera a ideia de autobiografia. Nunca me interessou contar minha história como uma sequência linear de fatos. O que me interessa é o que escapa à linearidade: os fragmentos, as interrupções, os retornos inesperados. O que me interessa é aquilo que não se resolve.

Talvez por isso minha escrita tenha se movido entre gêneros sem se fixar em nenhum. Poesia, crônica, narrativa breve — tudo isso são formas possíveis, mas nenhuma delas me contém completamente. Eu escrevo onde a forma se torna insuficiente. Escrevo onde ela precisa ser atravessada.

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Esse atravessamento nem sempre é consciente. Muitas vezes, acontece antes que eu possa nomeá-lo. Mas, ao olhar para trás, percebo que há um fio que atravessa tudo o que escrevi: um modo de lidar com o tempo, com a cidade, com o corpo, com a linguagem.

A cidade, por exemplo, nunca aparece para mim como pano de fundo. Ela é presença. Ela me atravessa tanto quanto eu a atravesso. Andar pela cidade é, de alguma forma, escrever com o corpo. Cada deslocamento é também uma forma de leitura. Cada rua, uma possibilidade de sentido.

O corpo, nesse processo, é central. Não escrevo a partir de uma mente abstrata. Escrevo a partir de um corpo que sente, que se cansa, que deseja, que se afeta. O corpo é o primeiro lugar onde o mundo acontece. E a escrita, talvez, seja uma tentativa de dar forma a esse acontecimento.

Escrever é, de certa maneira, um modo de cuidar de si — mas não no sentido de proteção ou fechamento. Cuidar de si, aqui, é abrir-se ao devir. É permitir que algo me transforme. Não escrevo para me fixar, escrevo para me mover.

Talvez seja isso que torne a leitura do que faço mais difícil de capturar. Não há uma mensagem central, um tema dominante, uma identidade fixa. Há movimento. Há deslocamento. Há uma tentativa contínua de habitar o mundo de maneira mais atenta.

E talvez seja também isso que, no campo literário, nem sempre encontra reconhecimento imediato. Vivemos em um tempo que valoriza intensidade, rapidez, visibilidade. Minha escrita, muitas vezes, vai na direção oposta. Ela desacelera. Ela observa. Ela se demora.

Mas não vejo isso como limitação. Vejo como escolha — mesmo quando essa escolha não foi totalmente consciente. Escrever, para mim, é resistir a uma certa forma de pressa. É insistir naquilo que não se resolve rapidamente.

Se este texto faz alguma coisa, talvez seja apenas isso: uma tentativa de me aproximar do que escrevo de outro modo. Não como autora que domina sua obra, mas como alguém que ainda tenta entendê-la.

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Talvez escrever seja isso: um modo de permanecer em movimento dentro de si mesma. Um modo de não se fixar. Um modo de continuar. E talvez o mais importante nunca tenha sido chegar a uma resposta, mas sustentar as perguntas.