Que sedução tem sobre nós a morte burra? A morte que não é suicídio, mas um acidente cruel e gratuito – ou procurado às cegas, como quem pisa no acelerador e fecha os olhos. Quando pequeno eu me admirava da história do almirante inglês que venceu batalhas, sobreviveu a naufrágios, e uma noite, ao voltar para casa, tropeçou, caiu com o rosto numa poça na calçada e morreu afogado. Ou com a história do sujeito que estava bêbado no apartamento, foi até a varanda e começou a urinar do alto do décimo andar, mas aí o jato líquido tocou num fio de alta tensão e ele morreu eletrocutado. Sem falar em mortes famosas como a do dramaturgo Ésquilo: ele estava numa praia onde as águias costumavam erguer tartarugas com as garras e soltá-las lá de cima sobre as pedras, para partir sua carapaça e poder devorar o recheio. Uma águia pouco observadora soltou uma tartaruga lá do alto sobre a cabeça calva do autor de Prometeu Acorrentado. (Mas, como ele próprio disse um dia, melhor morrer de repente do que sofrer eternamente)
Nos EUA foi criado o Prêmio Darwin (http://www.darwinawards.com/) para homenagear simbolicamente aqueles indivíduos que morrem de morte burra. Não me refiro a mortes involuntárias, como a de Ésquilo, mas àqueles acidentes que contam com a colaboração do acidentado, fazendo alguma enorme bobagem e perdendo a vida em conseqüência. Chama-se “Prêmio Darwin” porque os organizadores consideram que o cara que morre assim colabora para a conservação da espécie, deixando vivos apenas os indivíduos mais inteligentes do que ele. É o caso, por exemplo, do sujeito que depois de limpar um depósito de gasolina entrou nele e acendeu um fósforo para saber se tinha ficado algum restinho (e foi parar a cem metros de distância), ou do casal britânico que, certamente inspirado pela canção dos Beatles “Why don’t we do it in the road?” parou o carro no acostamento, à noite, e foi fazer sexo no meio da rodovia.
Vocês acham que ser engolidor de espadas num Circo é coisa arriscada? Mais arriscado ainda é fazer como fez um deles na Alemanha, que engoliu um guarda-chuva e por distração apertou o botão que o abria. Ou o advogado de Toronto que, para mostrar a visitantes o quanto o vidro de seu escritório era à prova de impacto, arremeteu contra ele com o ombro, estilhaçou a janela e caiu vinte andares. Tem também o casal americano que foi fazer “rappel” numa ponte por onde passa uma via-férrea: prenderam as cordas, e desceram, pendurados sobre o abismo, curtindo o panorama até que o trem veio e cortou as cordas – que estavam amarradas aos trilhos.
Morrer de um acidente ou de uma bala perdida pode acontecer com a mais precavida das pessoas. Mas existe gente que, numa mistura de imprudência, distração ou insensatez, parece procurar uma morte que jamais lhe aconteceria mesmo na mais improvável combinação de circunstâncias. Só aconteceu porque a vítima obrigou o Acaso a matá-la.
1320) A maldição da morte burra (6.6.2007)
Prêmio Darwin, Morte acidental, Comportamento humano, Imprudência
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo
