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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Culturas Marginalizadas
Avisos de Conteúdo: Preconceito, Doença, Morte, Incesto, Cenas Explícitas
O último tema do desafio Ler a Diferença, da Elga Fontes [Quem Me Lera], concentra-se num panorama que continua a ser desvalorizado na nossa literatura. Por esse motivo, o objetivo passava por abraçar obras escritas por autores pertencentes a culturas marginalizadas - «e que, de alguma forma, a representassem na sua escrita». Assim, focando-me na cultura Américo-Latina, optei por regressar a Gabriel García Márquez.
«Era de facto uma aldeia feliz»
Cem Anos de Solidão tem um início lento, mas intrigante, até porque nos transporta para uma aldeia fictícia, despertando, no leitor, a vontade de compreender como é que a sociedade se desenvolve, se envolve nas problemáticas e subsiste perante adversidades, mudanças e carências. Embora a prosa - quase poética - do autor seja sempre fascinante, confesso que demorei a relacionar-me com a história, visto que há um número elevado de personagens e muitos acontecimentos em simultâneo, que nos podem desnortear, caso a nossa concentração não esteja fortalecida. Porque é um livro que nos exige muito presentes nas suas ramificações.
«Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento,
deu-se conta de que podia chegar o dia em que se reconhecessem as coisas
pelas inscrições mas em que não se lembrasse da sua utilidade»
É, apesar disso, uma leitura enriquecedora, sobretudo, por expor a experiência colonial, a clausura, o impacto da guerra, a corrupção e a opressão de um povo. De um prisma emocional, explora os fantasmas do passado, o medo, a loucura, os anseios e as dores de uma população à deriva. Através de uma linguagem simbólica, interliga o misticismo e a dura realidade da marginalização. E coloca em evidência diversos papéis sociais.
«Depois de tantos anos de morte, era tão intensa a saudade dos vivos»
A narrativa tem, para mim, duas vertentes poderosas. Por um lado, reserva um olhar crítico à dinâmica familiar, na qual a ausência, a negligência e a falta de comunicação assumem um protagonismo desarmante, e, por outro, tem a sua força na figura da mulher, atendendo a que é um elemento central na gestão da casa, da família e da própria cidade. Ao caminharmos por entre estes dois lados da margem, vamos sendo surpreendidos por episódios caricatos, surreais, que nos deixam boquiabertos - e predispostos a aceitá-los.
«Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta»
Cem Anos de Solidão é uma história que interliga sete gerações e que marca uma reprodução cíclica dos acontecimentos. Com um toque evidente de realismo mágico, mostra-nos todo o encanto colombiano e o quanto a solidão, mesmo que coabitemos com um forte sentido de comunidade, é um estado de alma.
«Ao dizê-lo não imaginava como era mais fácil começar uma guerra do que acabá-la»
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