Não tem como iniciar essa resenha sem antes falar um pouco sobre o fenômeno Aline Bei. A autora ficou conhecida por seu romance de estreia, O Peso do Pássaro Morto, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura. Porém, o reconhecimento de seu primeiro livro não veio apenas por parte da crítica. Entre o público geral, O Peso do Pássaro Morto não passou despercebido e esteve entre as leituras da maioria dos leitores brasileiros nos últimos anos. Não apenas entre as leituras, mas entre os favoritos. Eu tive o prazer de ler seu primeiro romance em 2020 e ele ficou entre os meus favoritos do ano.
Aline Bei escreve o tipo de história que eu amo, aquelas que deixam um gosto amargo na boca e um aperto no peito, que tiram o leitor da zona de conforto, pois nos confronta com verdades difíceis de aceitar e realidades difíceis de olhar. Lembro que a leitura de O Peso do Pássaro Morto foi dura e pesada para mim, mas, mesmo assim, eu devorei o livro de uma vez só, como uma cena feia que o espectador não consegue parar de olhar.
Além disso, Bei possui uma escrita que cativa facilmente. Sua escrita poética em formato de versos é rápida e nem por isso perde a profundidade. Muito pelo contrário, a autora consegue colocar em uma única frase muito mais significado do que a maioria de nós consegue colocar em um parágrafo inteiro. Se você já viu uma entrevista com a Aline Bei, você percebeu que essa narrativa poética é parte de sua oratória normal. Aline Bei tem poesia dentro de si e seus textos transmitem isso de forma autêntica e única.
Com tudo isso em mente, é óbvio que minhas expectativas para seu segundo romance eram altas. Confesso que fui esperando receber o mesmo impacto que recebi com o primeiro. E sim, Pequena Coreografia do Adeus tem muito do que havia em seu primeiro livro, mas se reserva ao direito de ser novo e diferente à sua própria maneira. Aline Bei nos conta a história de Júlia e constrói em Pequena Coreografia do Adeus quase um romance de formação, que nos permite observar de perto a personalidade da personagem se formando, uma personalidade quebrada, machucada e traumatizada. Filha de pais separados, Júlia passa muito de seu tempo com a mãe, uma mulher igualmente quebrada que, infelizmente, deposita muitas de suas frustrações em Júlia, através, principalmente, de violência física, mas também com muita violência psicológica.
As surras que Júlia leva ao longo do livro são de fazer o leitor tremer, mas o que mais me abalou foi o comportamento passivo-agressivo de sua mãe, as ofensas veladas, as feridas na autoestima de Júlia, a forma como cada palavra da mãe trazia pedras e espinhos disfarçados. Por outro lado, temos a negligência e o abandono do pai, que se retirou e deixou a filha lá, mesmo sabendo o que acontecia. E Júlia também sente isso, apesar de seus sentimentos serem controversos. Afinal, ela ama o pai, que não a agride, mas o odeia por tê-la abandonado.
A rotina de Júlia na escola e em outros ambientes também é retratada. E é evidente que uma criança que é tratada com tamanha violência vai refletir isso em suas outras relações. A reflexão que Aline Bei deixa no ar ao longo da leitura é tão importante, pois evidencia quem são as crianças agressivas e porque elas se comportam dessa forma. Crianças falam e fazem aquilo que observam, ouvem e recebem. Logo, se uma criança vê os pais lidando com os problemas de forma agressiva, é bem provável que ela vá reproduzir esse comportamento. Resumindo: uma criança que apanha, é uma criança que bate.
Pequena Coreografia do Adeus, assim como O Peso do Pássaro Morto, é uma leitura desconfortável e dolorosa. E mesmo assim é impossível não gostar do livro. Eu odiei ver Júlia passando por tudo aquilo, apanhando, sendo negligenciada, abandonada, subestimada e ridicularizada, mas amei a forma como a autora soube ligar os pontos, quase como um mapa do desenvolvimento humano. Cada palavra e cada surra se transformando em uma marca que, na vida adulta, se tornaria uma dificuldade, um trauma, um bloqueio ou uma insegurança.
Que adultos nascem de crianças sem afeto? O que a negligencia, o abandono e a violência fazem com as pessoas? Essas perguntas não estão explicitadas no livro, mas elas estão lá, em cada linha escrita por Bei. A parte do livro que se reserva à vida adulta de Júlia é igualmente densa. Mesmo sem a convivência com a mãe e as surras, é como se Júlia carregasse a mãe consigo o tempo todo. Há sim momentos felizes ao longo da história de Júlia, mas eles são tão breves, que servem apenas para que o leitor tome fôlego antes de mergulhar novamente. Nas últimas páginas, eu quase prendi a respiração por medo de que algo horrível acontecesse a qualquer momento. E acontece? Bom, vocês precisam ler pra saber.
Seu segundo romance tem um ponto positivo em relação ao primeiro: mais páginas. Lembro que, quando terminei seu primeiro livro, apensar de estar emocionalmente cansada após a leitura, eu queria mais. Já em seu segundo romance, Aline consegue entregar uma história maior, o que me deixou muito satisfeita. Porém, mesmo com suas quase 300 páginas, o final abrupto me fez desejar algumas páginas a mais. Mas o que seria de um livro pra te tirar da zona de conforto sem um final abrupto, não é mesmo?
Eu amei o livro e vou seguir acompanhando a carreira de Aline Bei. É ótimo ver uma jovem brasileira obtendo reconhecimento com a sua escrita e eu só quero parabenizá-la por suas conquistas totalmente merecidas. Recomendo muitíssimo Pequena Coreografia do Adeus, a edição está linda e a arte da capa é muito bonita.
Título Original: Pequena Coreografia do Adeus ✦ Autora: Aline Bei
Páginas: 288 ✦ Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora
