A literatura russa tem sido uma das minhas paixões e vem fazendo parte das minhas leituras mensais há bastante tempo. Dentre as muitas obras russas, Guerra e Paz é talvez o maior livro já escrito, não apenas em extensão, mas em relevância. Eu sempre soube que em algum momento eu leria Guerra e Paz, mas, demorou pra eu me sentir pronta pra encarar essa leitura. Na verdade, acho que esse é o tipo de livro que nunca estamos prontos para ler. A oportunidade surge e a gente se joga sem pensar muito. Foi assim comigo.

Comecei a ler Guerra e Paz e pensei "ok, não é muito diferente de outras obras russas que eu já li". Inicialmente, a leitura me lembrou um outro clássico russo, Os Demônios do Dostoiévski, e isso me animou, porque eu amo esse livro. O leitor começa acompanhando uma reunião na casa de uma personagem, aí algumas pessoas vão chegando, personagens vão surgindo, mais pessoas aparecem, e mais e mais e mais. E foi aí que eu entendi a real dificuldade dessa leitura. São muitos personagens, e os nomes russos tendem a ser complicados.

Então, aí vai a primeira dica: tome notas durante a leitura. Eu sei que a gente começa a leitura confiante, achando que não precisa tomar notas, mas, não se engane, Guerra e Paz não é um livro para ler em qualquer lugar. Esse é um livro que você precisa sentar e ler, com lápis e papel do lado. Existem listas de personagens na internet, mas, eu recomendo que cada um faça seus próprios esquemas da forma que fizer mais sentido para cada um. Eu ia anotando os nomes dos personagens, seus laços com outros personagens e características que eu achava marcante. Aí, quando eu precisava, eu consultava e, com o tempo, eu fui lembrando dos personagens mais importantes e não precisava consultar minhas notas o tempo todo. É importante mencionar que a dificuldade gerada pelo número elevado de personagens é apenas uma dificuldade inicial e passageira. Como eu disse, se você tomar notas e se organizar, logo isso deixa de ser um problema.

Não existe um personagem principal em Guerra e Paz, apesar de alguns deles ganharem mais destaque que outros. É um livro sobre a vida russa e sobre como essas vidas foram afetadas pela guerra. A obra reflete sobre as consequências de uma guerra na vida de homens, mulheres e crianças.

Em Guerra e Paz, assim como em Anna Kariênina, Tolstói trabalha muitos antagonismos, como fica explícito no próprio título. A pobreza e a riqueza são exploradas, assim como a juventude e a maturidade, o amor e a indiferença, e também as diferentes e controversas funções de uma guerra. A escrita do Tolstói é um deleite. Eu sentava e lia mais de 100 páginas sem perceber, pois a narrativa é realmente envolvente e, nesse sentido, os vários personagens dificultam que o leitor se sinta entediado. Os pontos de vista estão sempre mudando em momentos interessantes e eu ia lendo querendo que voltasse logo para aquele outro personagem e assim por diante.

Os debates que os personagens travam sobre a guerra que está por vir e a forma como cada um encara isso foram alguns dos pontos que eu mais gostei. A honra e o desejo de ser lembrado é posto em questão frente à necessidade de permanecer vivo. Eu amo como Tolstói consegue dar profundidade a todos os seus personagens. Superada a confusão inicial em lembrar de cada personagem, o leitor é mergulhado em questões psicológicas e sociais complexas. Cada personagem tem suas próprias angústias, suas dúvidas, seus medos, seus anseios e desejos e sonhos e, em meio a toda essa vida, surge uma guerra que coloca tudo em um plano diferente, onde tudo é mais incerto e nada é previsível.

Antes do início da guerra, acompanhamos as pessoas se divertindo e as conversas sobre a guerra ainda soam como algo relativamente distante e, conforme as páginas vão passando, parece que uma nuvem negra vai surgindo e cobrindo tudo. A guerra se torna o assunto principal e os medos se tornam muito mais reais. Tolstói misturou fatos históricos com ficção e criou uma obra épica. A temática da guerra deixa tudo ainda mais complexo e mostra como um evento tão grande e generalizado pode gerar consequências tão minuciosas.

Tolstói constrói seus personagens em cima de sutilezas e nuances, fazendo com que o leitor vá absorvendo pouco a pouco daquela personalidade. Pierre, por exemplo, é ingênuo e tolo, Vassíli é um oportunista e Andrei é constantemente insatisfeito e controverso. Não é como se fulano fosse bom e ciclano ruim. São nuances, variações de uma mesma característica. Da mesma forma que o leitor sente pena de Pierre, sente também repulsa pela sua ingenuidade extrema. Assim como Andrei, que nos desperta compaixão e raiva ao mesmo tempo.

Eu gostei muito de acompanhar a família Bolkonski, especialmente os irmãos Andrei e Marya (que é minha personagem favorita). Andrei está longe de ser um personagem totalmente bonzinho, mas ele é tão real e sua evolução é tão coerente que não tem como não gostar dele. Pierre também é um personagem extremamente cativante, é aquele tipo de personagem que o leitor tem vontade de pegar pela mão e guiar. Por fim, Natasha é uma das personagens mais interessantes que eu já conheci. Algumas pessoas não gostam dela por algumas decisões que ela toma, mas eu a acho fascinante.

Como muitos dos livros russos, em Guerra e Paz os relacionamentos se cruzam. A gente acompanha o personagem X, que é pai da personagem Y, que se casa com Z, que é amigo de W, e assim por diante. Isso proporciona um efeito dominó muito interessante, porque tudo que acontece com um personagem vai interferindo nos outros. Os capítulos dedicados aos relatos de guerra me cansaram bastante, mas também foram bastante chocantes em alguns momentos. Ainda assim, eu preferi quando a narrativa vinha para as casas das pessoas e mostrava mais a rotina longe das batalhas. Outra característica dessa obra e que é bastante típica de Tolstói é querer evidenciar o lado sujo das relações da alta sociedade russa.

A evolução dos personagens é algo único de se acompanhar, principalmente se levarmos em consideração que a situação de guerra é atípica e extrema, o que gera um desenvolvimento de personagens diferenciado. O desejo de ir para a guerra quando não se sabe o que realmente é a guerra é contraposto com o desejo de voltar para casa depois que se vive os terrores da guerra de fato. Me senti em um jogo cruel em que eu torcia pelos personagens ao mesmo tempo que sabia que tudo poderia acontecer.

O livro vai ficando mais triste e pesado conforme os relatos de guerra vão ganhando espaço. Algumas passagens são bem pesadas e as reflexões são bastante sombrias. Tolstói alterna fatos históricos com ficção, descrições de guerra com momentos divertidos, cenas de riqueza com relatos pesados de guerra. É um livro complexo e completo, com ação, romance, drama e comédia. Gosto de como o autor humanizou uma guerra que, a princípio, a gente só conhece a visão geral por conta do que estudamos na escola.

É insensato querer que um livro com mais de 1.500 páginas seja fluido e legal o tempo todo. Teve momentos em que a leitura foi cansativa sim. Porém, dada a magnitude dessa obra, acho que o que importa é a experiência de leitura. E os momentos chatos compõem essa experiência, que é grandiosa e épica do começo ao fim. Essa leitura me proporcionou momentos únicos. Eu ri, me emocionei, fiquei chocada, precisei fechar o livro para respirar, esperneei de raiva, revirei os olhos, enfim, uma centena de sentimentos. Guerra e Paz me despedaçou em muitos momentos, mas também me deixou com o coração aquecido.

Tolstói era um pregador, adorado em sua época e visto por muitos como conselheiro é até como santo. Esse dom que o autor tinha com as palavras fica muito evidente em Guerra e Paz, nas reflexões propostas pelo autor e na forma como ele elabora os personagens. Pierre é claramente inspirado no próprio Tolstói. Basta conhecer um pouquinho sobre a história do autor para perceber que o personagem foi inspirado nele próprio.

Eu aproveitei a leitura dessa obra e assisti a adaptação para minissérie da BBC. São 6 episódios de aproximadamente uma hora cada um. E é absolutamente fantástico, impecável. A fotografia é sensacional, assim como a trilha sonora. A BBC conseguiu adaptar muito bem a atmosfera do livro e conseguiu me fazer chorar em vários momentos. É claro que a leitura é indispensável, mas eu recomendo a minissérie, acho até que ajuda na hora de imaginarmos os personagens. A minha experiência de ler e assistir foi uma delícia. O personagem do Pierre é belíssimamente interpretado pelo incrível Paul Dano que, apesar de não coincidir com as características físicas do personagem, deu um show de atuação.

Enfim, a leitura de Guerra e Paz é magnifica. É preciso superar muitos medos comuns para encarar essa leitura. O medo de clássicos, o medo de obras russas e o medo de calhamaços, por exemplo. Eu recomendo fortemente. Acho que nenhum leitor passa por essa obra sem ser transformado.

Título Original: Voina i Mir
Autor: Tolstói
Tradução: Rubens Figueiredo
Páginas: 1.536
Editora: Companhia das Letras
Livros recebidos em parceria com a editora