Thomas Mann escreveu Os Buddenbrook aos 25 anos. É sempre surpreendente pensar que uma obra como essa pode ter sido escrita por alguém tão jovem. Principalmente quando na obra não faltam profundidade e complexidade. Os Buddenbrook é também o primeiro romance do autor e ele foi por um caminho que costuma render boas histórias: as relações familiares. Outros grandes romances como Anna Kariênina e Os Irmãos Karamazov também colocam a família como elemento importante. Então, o que Os Buddenbrook oferece de novo ao leitor?

No subtítulo de Os Buddenbrook lê-se: Decadência de uma família. Nas primeiras páginas da obra encontramos uma grande e rica família comemorando a inauguração de uma residência recém adquirida e cheia de luxos. Ligue as duas coisas e você tem a combinação perfeita para despertar a curiosidade do leitor. Imediatamente surgem os questionamentos de 'o que vai acontecer?' ou 'de que forma essa rica família irá decair?'. No entanto, até obtermos essas respostas, teremos muitas outras surpresas. E essa é a primeira coisa que você precisa saber sobre essa obra.

Afinal, Os Buddenbrook não é um livro que tem um plot central que norteia toda a história. Não existe um ponto específico em que a história precisa chegar. A genialidade da obra está no fato que se trata da vida de uma família, dos acontecimentos, das pequenas coisas, e também das grandes. Geração após geração, Mann nos permite ser espectador do dia a dia dessa família.

A grande família Buddenbrook vai, ao longo do livro, mudando, ganhando novos membros e perdendo outros, gerações vão desaparecendo, enquanto outras vão surgindo, os mais velhos partem enquanto as crianças vão se tornando adultas e assumindo o comando da empresa familiar. Acompanhar cada uma dessas vidas é realmente um dos pontos fortes do livro. Mann é um ótimo criador de personagens, dando a cada pessoa uma personalidade muito bem delineada e que torna fácil visualizar e se apegar a cada um. Logo, cada partida é sentida pelo leitor, e cada chegada é comemorada.

Mann também é um autor bastante descritivo. Roupas, móveis e comidas são descritos em detalhes e permitem que o leitor obtenha imagens vívidas dos cenários. Aos poucos, o autor vai compondo uma atmosfera que é muito particular e fazer essa leitura acaba sendo um exercício de entrar nesse universo toda vez que abrimos o livro. A narrativa consegue fazer com que o leitor mergulhe na história de forma profunda.

A decadência da família não é apenas financeira, mas permeia as relações interpessoais e se reflete na harmonia da casa. Acompanhamos quatro gerações dessa família, mas, a terceira é a que mais ganha espaço. Os irmãos Thomas, Christian e Antoine ainda são crianças quando aparecem pela primeira vez na história, mas vão assumindo novas responsabilidades conforme crescem.

A função de Antoine, ou Tony, enquanto mulher, é a de conquistar um bom casamento. Thomas acaba assumindo a responsabilidade pela empresa e Christian é a "ovelha negra" da família, sempre disposto a ir contra o que se espera dele. Os personagens estão sempre sendo direcionados a agir de forma a garantir o bem comum, a reputação da família, a manutenção do dinheiro e o sucesso da empresa, e isso vai permeando a vida de todos de forma muito tocante.

É difícil definir sobre o que é essa obra, pois ela engloba muitos assuntos. É uma família em que cada um precisa exercer um papel muito específico que visa garantir o sucesso coletivo e, para isso, todos eles vão precisar abrir mão de alguma coisa em algum momento, em maior ou menor grau, com mais ou menos resistência. Isso torna impossível não se solidarizar com a rebeldia de Christian, o sofrimento de Tony e a solidão de Thomas.

A personagem que eu mais gostei foi a Tony. Ao longo do romance, ela vive algumas situações que são extremamente tristes, chocantes e revoltantes. Thomas também é um personagem muito legal de acompanhar. Suas questões são muito mais internas e o vazio crescente no personagem vai se tornando tão palpável ao leitor que é até doloroso. Fica muito claro para o leitor que cada personagem, cada um a seu modo, precisa lidar com o peso do sobrenome que carrega.

A leitura de Os Buddenbrook é uma jornada longa, às vezes cansativa, mas, certamente, muito gratificante. Recomendo pra quem deseja uma grande e épica leitura.

Título Original: Buddenbrooks

Autor: Thomas Mann

Tradução: Herbert Caro

Páginas: 712

Editora: Companhia das Letras

Livro recebido em parceria com a editora