Diorama, 310 páginas, é da Cia. das Letras

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Cecília é uma brasileira que vive nos Estados Unidos e trabalha em um museu de história natural como taxidermista e montadora de dioramas. O livro alterna entre o presente dela na Califórnia e as memórias de sua infância em Porto Alegre, no final dos anos 1980.

O evento que ancora toda a história é o assassinato de João Carlos Satti, um deputado e radialista influente, morto a tiros na frente de seu prédio. A família de Cecília foi dramaticamente afetada pelo evento porque seu pai, Raul Matzenbacher, também deputado e amigo próximo da vítima, foi acusado pelo crime e levado a julgamento (essa parte é inspirada num caso real, a morte de José Antônio Daudt).

Cecília há muitos anos não volta ao Brasil. Não se dá muito bem nem com o pai, de cuja culpa ela não tem dúvida, e nem com a mãe, que a certa altura não aguentou a pressão e saiu de casa sem levar os filhos. Mesmo com os irmãos ela conversa pouco. Sua convivência se resume a seu namorado, Jesse, e seus colegas de trabalho.

Apesar de ter cortado laços com o passado, ela é obcecada por ele, com pastas de recortes de jornal sobre as acusações ao pai e seu julgamento (no qual ele termina por ser inocentado). Com base em suas falhas memórias (ela tinha só 9 anos na época do assassinato), conversas posteriores com membros da família, e seus recortes, ela vai remontando os acontecimentos, reconstruindo-os como faz com os animais empalhados, mudando os personagens de lugar como num diorama até chegar na imagem que mais se aproxima de uma descrição verossímil da realidade.

No momento atual, a notícia de que seu pai sofreu um derrame perturba a estabilidade emocional de Cecília. Embora ela não admita como narradora, isso transparece no fato de que logo depois de ouvir o relato do irmão a esse respeito, ela sai de casa e trai o namorado com outra mulher, numa até então inédita aventura lésbica.

A autora vai reconstituindo os elementos pessoais e históricos ligados ao caso do assassinato bem devagar, abordando diferentes aspectos da vida da pequena Cecília. Sua relação com os irmãos, com a mãe, com a música, com a biologia, com a escola, com as acusações que vão sendo feitas ao pai, com as inconsistências da defesa. O recurso de apresentar a narração do ponto de vista de uma criança é eficiente em enfatizar a natureza um pouco caleidoscópica da percepção, o que serve para criar um suspense de baixa voltagem e longa duração, e também para introduzir na história um pouco mais da ambiente cultural do Brasil e da Porto Alegre dos anos 80 (fitas cassete, maconha, homossexualidade, AIDS…)

Ao intercalar a narração daquela época com os dias de hoje, ao voltar a momentos diferentes a cada lembrança, ao intercalar breves digressões técnicas sobre taxidermia (o que lembra um pouco os cacoetes do Rubem Fonseca, mas em grau menos grave), Bensimon vai introduzindo novos elementos, pequenas revelações que vão esclarecendo aos poucos o que aconteceu, de modo que temos uma história policial, mas que não é contada no formato de uma investigação linear.

Nenhuma machadada.

(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)

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