Lolita é um desses casos em que um livro transcende a barreira da literatura e se torna um elemento cultural com vida própria. Quem nunca ouviu falar de Lolita? O romance de Nabokov é, com certeza, uma das obras mais polêmicas e debatidas da literatura. Afinal, é impossível terminar de ler Lolita e não se sentir inclinado a conversar com alguém sobre o livro. E é isso que vim fazer aqui. 

Minha primeira leitura de Lolita foi há muitos anos, e sempre me deixou com aquele sensação de que eu não tinha absorvido tudo que essa história tem a oferecer. Então, decidi reler e, realmente, quanta coisa há nesse livro e quanta coisa precisa ser debatida.

Lolita já foi descrita como uma história de amor, de pedofilia e de obsessão. Os debates que o livro levanta são intermináveis e sempre rendem muito. Quero começar dizendo que não existe história de amor se uma das partes envolvidas tiver 12 anos. Eu concordo totalmente que Lolita é uma história sobre pedofilia e sobre obsessão, mas também acho que não para por aí. Tem muita mais coisa nessa obra.

Mas vamos do início. O básico a maioria das pessoas já deve saber: o livro é narrado por Humbert Humbert e se trata, na verdade, de uma confissão. No início do livro, o leitor já descobre que Humbert morreu na prisão enquanto aguardava julgamento por um crime, crime este que o leitor não sabe do que se trata, e deixou o livro pronto para ser publicado. Então, H. H. nos conta sua história pelo seu ponto de vista, é claro. E aqui nós temos a primeira grande questão desse livro: Humbert é, muito provavelmente, o narrador não confiável mais conhecido da história da literatura. Ele nos conta toda a sua história e narra como se tornou um pedófilo. E ele sabe que é um pedófilo. Porém, ele tem uma teoria bizarra sobre ninfetas: demônios que assumem a forma de meninas para seduzir homens mais velhos. E essas ninfetas costumam ter entre 9 e 14 anos. Olhem esse trecho:

[...] precisa haver uma lacuna de muitos anos, nunca menos de dez, eu diria, geralmente trinta ou quarenta, até noventa em raros casos, entre donzela e homem para que este possa ser vitimado pelo feitiço de uma ninfeta.

E é em cima dessa ideia que Humbert elabora seu depoimento, sempre argumentando que as ninfetas provocam os homens. E em determinado momento de sua vida, Humbert conhece Dolores, que ele chama de Lolita, a filha da sra. Haze, que aluga um quarto para Humbert. A partir daí, o leitor acompanha a obsessão de H. H. por essa garota e como esse ser maligno seduz o coitado do homem (contém ironia).

A coisa toda vai tomando uma proporção tão grande e tão assustadora que eu precisei ler essa história em pequenas doses. Minha revolta e meu nojo eram tão grandes que era difícil ler sem parar por muito tempo. Como eu disse, Humbert é um narrador não confiável, mas ele, em vários momentos, deixa escapar algumas informações que permitem que o leitor perceba (e só não vê quem não quer) que a menina está completamente desconfortável e infeliz.

Além disso, Humbert tem algumas falas que são de enlouquecer o leitor. Ele fala de si mesmo na terceira pessoa, se define como um homem muito bonito, que chama a atenção de mulheres e de ninfetas e discorre o tempo todo sobre como ele é um homem bom, que respeita as "crianças comuns" e que jamais agiria se não fosse provocado.

A escrita do Nabokov é realmente diferenciada e ele escreve de forma muito poética. O livro não é narrado de forma explícita, não se trata de um livro erótico como muitos pensam. Inclusive, algumas partes eu precisei reler várias vezes pra conferir se eu tinha entendido certo. Então, é realmente um livro que requer atenção. Eu não diria que é um livro de narrativa difícil, a narrativa é rebuscada sim, mas não difícil. Difícil é o conteúdo.

O livro tem quase 400 páginas e se manteve interessante do início ao fim. Eu não lembrava o desfecho da história, então, minha releitura foi empolgante como uma primeira leitura. No entanto, senti que o ritmo da história caiu um pouco no final e não foi tão interessante como o restante do livro pra mim.

Acompanhar os pensamentos de Humbert é torturante, e ver as coisas pelo ponto de vista dele chega a confundir a cabeça do leitor. É muito sutil a forma como a narrativa nos confunde. E tudo isso faz parte da genialidade dessa obra. O autor quer te confundir, quer fazer você sentir empatia por Humbert e, principalmente, quer fazer você colocar a culpa na Dolores. Por isso é um livro cansativo, , porque força o leitor a pensar, porque o leitor precisa parar a leitura a todo momento pra poder refletir sobre o que leu, e refletir de forma crítica e atenta, não basta apenas absorver o que o narrador diz.

Recomendo, mas com cautela. Se você é sensível a temas como pedofilia e abuso sexual, eu não acho que seja um boa escolha de leitura. Certamente, Lolita é um livro que marca a vida do leitor, então, se você está preparado e disposto a mergulhar na mente perturbada de Humbert Humbert, se joga!

Título Original: Lolita ✦ Autor: Vladimir Nabokov