Se você acompanha o universo dos livros de fantasia, você provavelmente já ouviu falar em The Poppy War. A Guerra da Papoula é o primeiro volume de uma trilogia que se inspira na história militar da China. Kuang é uma grande estudiosa da China e, atualmente, está fazendo seu doutorado em Literatura e Línguas do Oeste da Ásia pela Universidade de Yale. O livro marca a estreia da autora e é um excelente indicativo de seu talento para a escrita e a criação de universos fantásticos bem construídos.
Nossa protagonista é Rin, uma órfã da Segunda Guerra da Papoula que vive com uma família adotiva em um vilarejo humilde. A família de Rin não guarda nenhum afeto por ela e, quando ela completa 14 anos de idade, eles lhe arranjam um casamento com um homem muito mais velho. Rin se recusa a aceitar esse destino e decide entrar na Academia Militar de Sinegard, a instituição mais prestigiosa do Império, cujo ingresso é quase impossível de tão difícil. Mas é a única alternativa que Rin possui.
Assim começa a história contada nesse primeiro volume da trilogia. É difícil falar sobre esse livro porque ele parece vários livros em um. Não vou entrar em detalhes, mas posso dizer que todo o plot que envolve Rin tentando entrar em Sinegard dura algumas poucas páginas. Em seguida, o livro se torna quase um Dark Academia para, em seguida, mudar de novo e se tornar muito mais sombrio, pesado e doloroso, justificando os vários alertas de gatilho apontados no início do livro.
A tensão envolvendo a ameaça de uma Terceira Guerra da Papoula é palpável e, quando esse momento chega, a autora não economiza nas descrições das batalhas. Eu me senti assistindo algum filme ou série de guerra, tipo Game Of Thrones, com muitos detalhes gráficos, sangue, tortura, ferimentos, abusos e mortes grotescas. Posso dizer que é um dos livros mais pesados que eu já li, porque as descrições das atrocidades cometidas são detalhadas. Além de toda essa violência e sofrimento, a autora também debate o vício em drogas, mais especificamente no ópio, substancia encontrada na papoula.
Num primeiro momento, eu achei o livro bastante juvenil e até pensei que eu pudesse me decepcionar, mas faz sentido esse tom mais jovem, afinal, Rin é apenas uma adolescente no início da história. Porém, conforme Rin cresce e amadurece, o livro amadurece junto com ela, se tornando cada vez mais profundo. Alguns acontecimentos do primeiro 1/3 do livro são bem previsíveis e eu senti que a autora gastou tempo demais para chegar onde o leitor já sabia que ela chegaria. Pra mim, o livro começou a ficar ótimo a partir da página 159, quando entramos no capítulo 8. Mas isso é apenas uma percepção minha, pois sei que muitas pessoas amaram essa primeira parte do romance.
Tem alguns saltos temporais no livro que me frustraram um pouco, pois continham avanços que eu gostaria de ter visto mais detalhadamente. Por outro lado, tem capítulos que poderiam tranquilamente serem omitidos. Esses pequenos "defeitos" são realmente pequenos demais para diminuir a qualidade geral do livro. Mesmo assim, achei que mereciam ser mencionados.
Rin é o tipo de protagonista que a gente adora, com sede de poder e desejo de vingança. Isso é ótimo, porque não tem nada pior do que ler um livro grande com protagonista chato. Durante todo o livro, eu gostei de acompanhá-la. Apesar de nem sempre concordar com as escolhas dela, eu queria saber qual seria seu próximo passo, porque ela é ousada, curiosa e até um pouco imprudente. Terminei esse primeiro volume curiosa para saber onde essa personagem vai chegar e o que ela vai se tornar. Rin é imprevisível porque o que a move não pode ser facilmente controlado.
Não quero deixar de mencionar Kitay nessa resenha. Que personagem adorável. Toda vez que ele aparecia eu ficava felizinha. Tem muitos personagens interessantes nessa história, mas Kitay tem uma doçura e uma pureza que me encantaram.
Os trechos que focam nos aspectos sociais, históricos e políticos dessa sociedade são muito interessantes. No quesito construção de mundo, a autora arrasou. Toda a história do Império é contada em detalhes, mas sem parecer uma aula chata de história, porque a autora soube dosar as explicações e contextualizações com os acontecimentos do presente.
E é claro: os elementos fantásticos. Afinal, estamos falando de um livro de fantasia. A cereja do bolo está aqui e o que já era bom fica ainda melhor. Magia, mitologia, deuses, xamãs e fé são termos que aparecem frequentemente ao longo do livro e que tornam esse universo ainda mais incrível. As criaturas mágicas me lembraram um pouco de ACOTAR, o que eu adorei. E adorei também as críticas feitas ao excesso de racionalidade e ceticismo e a forma como a autora relacionou isso com a perda de contato com a magia. Inclusive, um trecho que me chamou muito a atenção diz o seguinte:
Você vai descobrir que o mesmo aconteceu em todas as grandes potências deste planeta que entraram numa suposta era civilizada. Mugen não tem xamãs. Hesperia não tem xamãs. Eles adoram homens que acreditam ser deuses, mas não os próprios deuses.
Ler esse livro (pelo menos a primeira metade dele) me deu vontade de acender um incenso, embaralhar meu tarot e me conectar com a jovem mística que habita em mim. Inclusive, a editora Intrínseca sabia muito bem que o livro causaria essa sensação porque, no press kit, além de pôster, mapa, broche e postal, eles também enviaram incensos e um incensario de bambu lindo. Não me canso de enaltecer o trabalho dessa editora.
O livro é dividido em 3 partes e a última é onde os acontecimentos mais chocantes acontecem. Eu até precisei dar uma respirada entre os capítulos para me recuperar. A leitura é muito envolvente e, apesar de sufocante, é difícil deixar o livro de lado por muito tempo. A história é dolorosamente real, explorando os piores aspectos do ser humano, ao mesmo tempo que é fantástica, com criaturas místicas, monstros e elementos mágicos. A raiva e a vingança são temas que permeiam todo o livro e a autora faz ótimas reflexões psicológicas.
O livro termina com um excelente gancho e, com certeza, conseguiu me deixar curiosa para o próximo volume. A Guerra da Papoula tem meu selo de Valeu o Hype!
Título Original: The Poppy War ✦ Autora: R. F. Kuang
Páginas: 512 ✦ Tradução: Ulisses Teixeira ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora

