É uma corrida contra o tempo. É um romance-manifesto contra o preconceito, o cinismo e a injustiça do sistema judicial. E é, também, uma apaixonante prova de amor. Oscilando entre o passado e o presente, a narrativa é tão real e comovente, que nos coloca no centro da ação, despertando uma total sensação de impotência, porque, por mais esforços que se façam, parece que permanecemos sempre um passo atrás. E por mais empática que eu seja, não consigo imaginar a dor de alguém que é condenado por um crime que não cometeu. Ainda para mais, quando se torna evidente que o maior indício para a condenação é a cor da pele.
MAIO
O enredo leva-nos para Barcelona dos anos 20, contextualizando melhor a narrativa que se concentra na família Sempere. Com uma abordagem distinta, mas igualmente misteriosa, senti-me perdida num labirinto de acontecimentos suspeitos, cujo destino parece ser apenas um. E dei por mim, em várias passagens, a partilhar a preocupação e o sufoco das personagens. Em simultâneo, também senti todo o amor que habita nestas páginas - desde os impossíveis àqueles que exaltam o seu lado mais puro. Transmitindo a sensação de ser uma história dentro de outra, mostra-nos o preço e as consequências das nossas escolhas e dos nossos atos. E deixa-nos com uma questão: será que conhecemos, verdadeiramente, as pessoas que nos rodeiam?
JUNHO

O Que Dizer das Flores, Maria Isaac
A capacidade de Maria Isaac para contar histórias já me tinha conquistado no seu primeiro livro - Onde Cantam os Grilos -, mas voltou a surpreender-me. Porque há tanta verdade nas suas personagens, nos seus dilemas e nas suas interações, que eu senti-me parte daquele ambiente. Além disso, tem um enredo que caracteriza bem a essência do nosso Portugal rural e da intimidade que vai interligando os seus habitantes, mesmo que haja tanto a separá-los. Com um ritmo aliciante e uma narrativa que demonstra o peso do passado, dos juízos de valor e dos silêncios, queria continuar a acompanhar o quotidiano de Mont-o-Ver. Porém, ainda que me tenha custado um pouco a despedida, sei que dificilmente me esquecerei destes protagonistas tão carismáticos.
JULHO

Heartstopper Volume 2, Alice Oseman
Estava a contar os dias para receber este livro, porque o primeiro volume conquistou-me de imediato. A história é tão relacional, independentemente da nossa sexualidade, que é fácil reconhecermo-nos nos medos, nas dúvidas e em todas as hesitações. Centrando-se mais em Nick e no seu processo de autodescoberta, é percetível que cada um precisa de tempo, espaço e apoio para se conhecer. Além disso, é inspirador quando temos, ao nosso lado, quem respeite isso. Porque esse é o maior sinal de amor. É impossível resistirmos.
AGOSTO

Este livro permite-nos conhecer Olga Lengyel, uma enfermeira húngara que vivenciou na pele o horror, a humilhação e a tortura de Auschwitz-Birkenau. Porém, não se concentra apenas na sua experiência, atendendo a que dá voz, ainda que de uma forma indireta, a todos aqueles que foram remetidos ao silêncio, que caminharam ao seu lado e que se viram privados de segurança e dos seus direitos mais básicos. Escrito com um tom cru e, igualmente, emocionante, este livro é um espelho dos homens, mulheres e crianças que sucumbiram, contra a sua vontade, a ideologias racistas e que viram ser-lhes negada a sua condição humana.
SETEMBRO

Balada Para Sophie, Filipe Melo & Juan Cavia
Uma das mais belas e brilhantes histórias que tive a oportunidade de descobrir. Fui envolvida nesta melodia sem ter noção da leveza com que o tempo avança, porque há um desenvolvimento que inebria; que tanto nos diverte, como nos comove. E se, por um lado, dei por mim a rir com as intervenções do protagonista, não é menos verdade que, por outro lado, fui invadida por lágrimas incontroláveis, sobretudo, na fase final. Porque esta não é apenas a história de um famoso pianista, é uma viagem intimista pela ascensão e pela queda - e por tudo o que ficou por dizer. Além disso, as ilustrações parecem ter vida, transportando-nos para cada momento da ação. Filipe Melo e Juan Cavia estão de parabéns pela magia que habita nestas páginas, pelos pormenores irrepreensíveis e pela sinceridade com que transmitiram cada emoção. Hei-de regressar a esta balada, que tem tanto de simples, como de complexa, por ser tão humana. É uma autêntica obra prima!
OUTUBRO

Coisas de Loucos, Catarina Gomes
A premissa desta obra é cativante, mas o que nos desarma e emociona é a maneira como cada história é contada com tanto respeito, dignidade e empatia. Há muita entrega e trabalho de pesquisa. E há, acima de tudo, uma vontade imensa de dar voz a pessoas cujas vidas ficaram esquecidas. Transportando-nos para o Miguel Bombarda, deambulamos por um mundo de memórias fascinantes, mas sem esquecer que não foi tudo um mar de rosas. Em simultâneo, coloca a saúde mental no centra da discussão, fazendo-nos refletir sobre o progresso dos tratamentos, sobre a privação da liberdade e sobre a sensação de termos o tempo suspenso.
NOVEMBRO
Este livro é o formato físico do podcast com o mesmo nome, privilegiando a mesma dinâmica e, ainda, a mesma imagem de marca: a discussão sobre «coisinhas insignificantes que dividem os casais no dia a dia». À medida que avançamos nos textos - 15 da autoria da Rita e 15 da autoria do Guilherme -, ficamos com a sensação de estarmos a escutar um episódio, até porque há expressões tão identitárias, que imaginamos as suas vozes a reproduzi-las. Assim, é fácil decifrar que cada argumentação transparece as suas personalidades.
DEZEMBRO

Não Serei Eu Mulher?, Bell Hooks
O Feminismo é uma luta urgente e não exclusiva das mulheres, ainda que sejam delas a voz que grita a desigualdade. No entanto, enquanto ideologia, continua a representar um movimento praticamente branco e elitista, como se percebe por este relato duro, elucidativo e tão necessário de Bell Hooks. Porque nos confronta com a opressão, a desvalorização, o sexismo e o racismo sofrido pelas mulheres negras. Sendo este um movimento que procura erradicar qualquer forma de exclusão, revolta saber aquilo que tiveram de enfrentar, quase como se fossem cidadãs de segunda; quase como se não fossem mulheres. Apesar de ser um livro de 1981, continua a ter perspetivas muito atuais e que nos levam a reconsiderar a nossa postura em sociedade.
Que livros marcaram o vosso ano?