“Nas semanas que precederam o meu retorno, revisitei os caminhos tortuosos das idades. Lembrei-me do sabor das comidas e das piadas, do vinho, dos cânticos, das montanhas e do mar, dos amores e das leituras. E, naturalmente, das amizades que haviam iluminado tantos impasses. Sim, mesmo alguém como eu, nascido sob o signo do intruso, não tinha o direito de esquecer os deleites de Gomorra. O encanto daquele lugar e de seus moradores não era ilusão, O encanto daquele lugar e de seus moradores não era ilusão, isso eu podia atestar. Paul Celan também viveu, em sua época bucarestina do pós-guerra, o tempo do ´trocadilho´, como o chamou depois, com divertida nostalgia. E também Tolstói, naqueles sete meses que passou em Bucareste em 1854 e em Chisinau e em Buzau e em tantas outras de suas paragens. A mistura de magia e tristeza não escapou ao seu olhar juvenil, ávido por livros e por aventuras vulgares, carnais, obcecado por aperfeiçoar o caráter e a escrita,mas obcecado também pela camponesa descalça, deitada no campo, ou por uma noite no bordel. Sim, a intensidade do instante, a vida toda num instante…”
(a resenha abaixo foi publicada, de forma um pouco mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 16 de julho de 2012)
Dois personagens podem ajudar a entender as questões levantadas em O retorno do hooligan [excelente tradução de Eugênia Flavian para Întoarcerea huliganului , 2003], do romeno Norman Manea: Leopold Bloom (Ulysses) e Sabina (A Insustentável Leveza do Ser). Embora irlandês até a medula, Bloom enquanto judeu é tratado ao longo do romance de James Joyce como um estrangeiro, até mesmo um usurpador. Mesmo ausentes exteriormente, os signos que conferem identidade genérica ao “judeu” o perseguem; já a personagem de Milan Kundera, exilada do regime comunista, deplora que o horizonte de “liberdade” do mundo democrático ocidental se transforme num terreno fértil para o kitsch e para a degradação cultural. O exílio é a sua condição de fato, irrevogavelmente.
Nascido em 1936, num país fortemente antissemita (Hanna Arendt, em Eichmann em Jerusalém, afirma que era o MAIS antissemita da Europa Oriental à época da Segunda Guerra), Manea passou parte da infância num campo de concentração. Sua família foi repatriada em 1945, para depois vivenciar a caricatura do socialismo perpetrada por Stálin e sua disseminação pelos satélites da União Soviética. Por triste ironia, o entusiasmo adolescente como militante comunista é o único momento em que ele não se sentiu à parte como cidadão romeno, tal como Bloom, até perceber o lado farsesco e a retórica mentirosa do regime. Formando-se engenheiro, arrastou-se a contragosto na profissão. Nos anos1970, procurou aval psiquiátrico para abandoná-la:
“De repente, quando menos se espera, você logo perde o controle ou tem a impressão de que o perdeu ou simulou perfeitamente a perda. Agora pode obter finalmente o atestado médico que o envia para casa, para o seu quarto, para a sua célula, o caixão que o separa do meio. E tudo isso por conta do Estado, que gracinha!
A engenharia teria me protegido? Uma proteção relativa e cara e mesmo que não tenha sido paga com interrogatórios e prisão e campo de concentração e colônias penitenciárias de ´reeducação´, apenas com os sonolentos truques do cotidiano…”
Exilou-se em 1986, tornando-se—além de um “traidor” da pátria, o que não deixa de ser tristemente engraçado—um intelectual polêmico nos EUA, devido a um ensaio no qual desmascarou seu famoso compatriota Mircea Eliade como entusiasta do fascismo na juventude. Manea não é um dissidente “grato”. Como a inesquecível Sabina de Milan Kundera, é um estranho no paraíso, o que fica evidente nas notáveis páginas iniciais do seu relato:
“Será o infantilismo dos talk-shows televisivos em que crianças de cinquenta anos reivindicam sabe-se lá que terrível acontecimento as traumatizou quando tinham cinco ou quinze anos? Crianças incompreendidas, homens incompreendidos, mulheres incompreendidas, abusos por idade e sexo e religião e raça—a Vitimização! O Repertório das Lamúrias Planetárias. Um trauma aos cinco anos de idade é justificativa para a falta de imunidade aos cinquenta e sessenta e seiscentos anos?”
O RETORNO DO HOOLIGAN faz uma ponte intertextual com um texto de 1935, de outro romeno, Mihail Sebastian (Como me tornei um hooligan):
“Hooligan? O que é um hooligan? Alguém sem raízes, um não alinhado, indefinido? Um exilado? Ou o que consta no dicionário Oxford da língua inglesa: The name of an Irish family in S.E. London conspicious for ruffianism?” (…) “Sem raízes, exilado, dissidente, é esse o hoolingan judeu?”
“Hooligan” (aquele que perturba o jogo por autoexclusão) consciente, em 1997, reluta em voltar à Romênia do pós-comunismo. Essa perspectiva de se confrontar com sua identidade fraturada de romeno sempre tomado como um forasteiro (feito Bloom) o deprime. Que tipo de retorno poderia aguardá-lo? Ao hesitar diante de tal passo, recapitula sua vida (e a de sua família) de uma forma brilhante. Apesar dos inúmeros textos já escritos nesse filão, ou talvez por causa disso, fiquei impressionado com O retorno do hooligan pelo menos por 280 páginas (de um total de 430)
Pena que na última parte, quando narra os eventos da visita, o livro não mantenha seu quilate. Manea é bom demais para que O Retorno do Hooligan deixe de interessar até o fim, mas é preciso dizer que seu texto se torna particular e específico demais, sem falar em certos recursos de gosto duvidoso, para não dizer toscos (fantasmas que lhe aparecem no quarto de hotel, “sombras” do passado!), ao contrário das partes anteriores, que faziam do livro uma espécie de enciclopédia subjetiva do século XX e que podem ser comparadas aos grandes exercícios memorialiísticos-caleidoscópicos de Jorge Semprún (como Um Belo Domingo e A Vida ou A Escrita).
São Paulo, sábado, 04 de agosto de 2012
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