Um filme que ocorre em 1977, bem na época da ditadura militar no Brasil. Marcelo é um especialista em tecnologia e foge para o Recife para reencontrar o filho. Mas, num país dominado por autoritarismo e repressão, em que sítio poderia ele encontrar um verdadeiro refúgio?

 

Poster do filme O Agente Secreto

 

Podemos começar, antes de mais, pelo nome — que faz parecer, erradamente, que este é um filme de acção, de espionagem... a realidade é que não tem nada disso. Confesso que não consigo entender muito bem a escolha do nome; imagino que esteja claramente ligado ao contexto sociopolítico, mas, depois de ver o filme, continuo a não conseguir compreender muito bem.

 

Não sendo eu, naturalmente, brasileira, houve momentos neste filme que me fizeram sentir que eram uma carta de amor ao Brasil e aos brasileiros — embora esse não seja o foco do filme; afinal, ocorre num contexto ditatorial. Mas todas as cenas de convívio entre os refugiados, a cultura e o ambiente em volta do Carnaval fizeram-me sentir isso.

 

Gostei muito também da narrativa não-linear (apesar do filme estar dividido em três partes), de como inicialmente não conseguimos compreender absolutamente nada do que se está a passar — para mais tarde começar a fazer tudo sentido e as personagens se ligarem todas umas às outras. Outro ponto a destacar é o início do filme; só depois compreendi como a cena inicial nos mostra logo aquilo a que o filme vem. Sem revelar muito, vemos basicamente como dois agentes da polícia estão mais preocupados com um condutor completamente inocente — quem é, o que está ali a fazer, se tem algo que não deve estar no carro — do que com um cadáver que está a apodrecer na rua há dias e para o qual a polícia já tinha sido, efectivamente, chamada.

 

Houve momentos do filme que só compreendi depois, ao fazer alguma pesquisa, por exemplo:

 

Por fim, houve três coisas que gostei bastante no filme. A primeira foi a forma inconclusiva como acaba; o nosso protagonista é apenas mais um, no meio de tantos; as investigações começam mas não acabam; até uma personagem diz claramente que a memória está a desaparecer. Parece dar a ideia de que todos aqueles acontecimentos, todas as mortes, toda a violência, por mais horríveis que tivessem sido, estão tão longe no passado que hoje em dia não são mais recordadas; mas também que este filme está aqui para homenagear todos os "mais um" que existiram naquela época.

 

A segunda coisa que preciso de destacar é a banda sonora. Maravilhosa, maravilhosa, maravilhosa. E finalmente, adorei a personagem da Dona Sebastiana. Que mulherzinha querida, que me fez sentir que também era uma carta de amor aos brasileiros, mas na verdade uma avózinha que todos nós conhecemos. ❤️

 

Posto tudo isto, temos de passar para os pontos negativos do filme. E acho que o mais significativo deles todos é o ritmo. O filme não é propriamente curto; tem quase 2h40 e, a partir de certo ponto, eu senti o tempo a passar... e senti muito. O ritmo é incrivelmente lento e não se justifica, há cenas que duram demasiado tempo, cortes que podiam ter sido feitos mais cedo na edição e partes que se arrastam tanto sem qualquer necessidade. E infelizmente, isto sacrificou algumas das partes positivas do filme, porque houve momentos em que me senti apenas farta de estar ali, só queria que o filme acabasse... Acho que a segunda parte, especialmente, durou muito mais do que era necessário. Tanto que comecei a pensar que o filme devia estar quase a terminar — por essa altura, já tinha passado tanto tempo que me tinha esquecido que o filme estava dividido em partes e que deveria naturalmente haver ainda uma terceira —, e quando o ecrã mostrou o início da terceira parte senti algum sofrimento.

 

Eu não quero que isto soe demasiado bruto, porque a verdade é que continuei investida na história e a querer ver o resto. Mas foi uma experiência certamente ambígua porque estava simultaneamente cansada.

 

Recomendo o filme, sem dúvida, mas acho que valerá mais a pena ver em casa, com o conforto de poder parar se assim nos apetecer. No cinema, achei uma experiência um bocadinho sofrega.

 

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Alguém já viu?