Os ramos da velha árvore curvavam-se para cima da casa, quase como se a abraçasse. O peso dos anos iria fazer com que um dia viessem a cair sobre a moradia, mas até agora era apenas uma ameaça de que todos tinham consciência. Do lado direito, uma parede incompleta mostrava sinais de ter sido atingida pelo fogo que no ano anterior tinha consumido a serra. Não havia portão, mas as silvas que a rodeavam eram tão altas que impediam a passagem afoita de quem ali tentasse entrar. Havia um caminho, um pequeno carreiro nas traseiras que deixava com que se penetrasse naquele matagal e se chegasse à casa, mas nunca sem trazer as pernas cheias de picos.

Ele tinha-o conseguido. Estava agora sentado nos degraus da frente, num alpendre apodrecido mas que ainda mantinha o seu aspeto original. Tinha subido a serra o mais rápido que as suas pernas o permitiam, e agora, ali, estava sozinho, mas sentindo-se mais seguro. A noite estava prestes a deixar tudo escuro e ele esperava que a neve que caía disfarçasse as suas pegadas. Seria fácil descobri-lo ali, mas pelo menos esta noite ia arriscar. 

Elsa Filipe