Luciene Azevedo

Créditos da imagem: Moyra Davey, The Coffee Shop, The Library (detail), 2011.
No ano passado, escrevi um post comentando o que era, naquela ocasião, o último livro de Emmanuel Carrère, Ioga. Estava interessada nos deslizamentos entre a não ficção e o romance tematizados na própria obra e também nos desdobramentos, digamos, paraliterários, já que uma disputa judicial com a ex-mulher arrastava o livro para uma classificação incerta.
Dois anos depois, Carrère retorna às origens com V13, O julgamento dos atentados de Paris. Voltar às origens, no caso do escritor francês, significa mergulhar no universo do jornalismo investigativo para explorar o que quase nunca encontra respostas fáceis. Foi esse desejo que nos fez conhecer Jean-Claude Romand, que matou os filhos, a mulher e os próprios pais para evitar que a mentira que elaborou para viver fosse desmascarada.
Em V13, ficamos sabendo, por meio do generoso texto de Grégoire Leménager publicado ao final do livro, que Carrère “no fim do outono de 2020”, ou seja, logo após o lançamento de Ioga na França, escreve-lhe para dizer que está “com vontade de escrever reportagens”, “nada de crítica, e sim trabalho de campo”. É isso o que lemos no e-mail enviado a Jérôme Garcin, responsável pelas páginas de cultura de Le Nouvel Observateur, e que Leménager reproduz em seu posfácio. Por sugestão dos editores, Carrère faz um “relato perturbador de dez páginas” sobre uma unidade psiquiátrica infantil, publicada em 2021 pelo jornal.
Depois disso é que os diretores do periódico oferecem ao escritor a possibilidade de acompanhar a cobertura jornalística do julgamento dos envolvidos nos atentados de 2015 que dispararam explosões por toda a cidade de Paris e mataram mais de uma centena de pessoas. Carrère ganha, então, um espaço fixo no jornal, uma página dupla semanal reservada para escrever as crônicas que se transformariam no relato de um jornalista que atua como um “operário que trabalha com a narrativa”, como o próprio Carrère se representa, e que “queria ir todos os dias ao tribunal, como outras pessoas vão “ao escritório”, que é como Leménager caracteriza a disposição de Carrère diante da tarefa.
Durante a leitura, vamos sendo enfeitiçados pela atmosfera do julgamento: sua chatice, suas repetições, os jogos de cena, o silêncio dos acusados, a comoção dos sobreviventes. A voz narrativa empresta ao leitor ao mesmo tempo sua condição de testemunha e de investigador, quer “escrever essa história coletiva, ler o livro desde o começo”, reconhece que “são duas ambições imensas”, mas isso não impede de tentar agarrar à unha “a História com H maiúsculo”, como afirma citando Perec.
Mas o que mais me chama a atenção é esse retorno ao jornalismo, a algo que oferece uma concretude: os atentados, as vítimas, os acusados, os sobreviventes. Como se Carrère precisasse refazer seu pacto como escritor de não ficção, como se esse retorno pudesse redimi-lo de ter se dobrado à “desnaturalização”, sendo obrigado em Ioga a apelar para a ficção. É como se a cobertura do julgamento oferecesse a ele a oportunidade de orgulhosamente afirmar que “tudo o que escrevi é certo”. Algo que ele lamentava não poder dizer em relação a seu romance anterior.
Mas pra mim não importam as veleidades do escritor. O que me interessa é perceber como a volta ao fato, ao atentado, não é garantia de sua transparência. É verdade que aqui não há a incômoda pergunta sobre os critérios “que nos permita[m] adivinhar se uma história é verídica ou fictícia” As dezenas de mortos e os relatos dos sobreviventes são a prova da verdade. É por eles que Carrère consegue escapar da ‘desnaturalização’.
Mas toda uma dimensão da verdade parece ainda nebulosa. Um dos acusados insiste em pleitear a redução de sua pena sob a alegação de que embora tenha participado do planejamento dos ataques, não havia levado a cabo o plano, afirmando que havia se arrendido. Carrère não se furta a expor as ambivalências: “Abdeslam pode muito bem ter desistido de se explodir no último minuto por altruísmo. (Mas imediatamente penso: se é verdade, por que não falaram antes?)” E parece um pouco decepcionado com o teatro do julgamento, com o pouco que toda a massa documental produzida judicialmente pode reconstruir o que aconteceu, suas motivações. Os acusados que sobreviveram e que pouco falam só acentuam a existência de “um vazio abissal envolvido por mentiras”.
Se a verdade, uma verdade é difícil de ser comprovada, Carrére se impressiona com “o rigor e o virtuosismo do exercício” dos advogados, com as exposições dramatizadas, com as articulações que lembram lances sofisticados de uma difícil partida de xadrez. Tudo é uma questão de narração, de narrativa, “Uma vez que não se pode contar tudo, escolher com cuidado os detalhes mais significativos.”
Talvez o retorno ao fato, à não ficção seja uma forma de analisar a plausibilidade das diferentes narrativas com as quais convivemos hoje, uma forma de investir especulativamente na análise de versões possíveis que constroem o quebra cabeça que é viver em nosso presente. Se for assim, as inúmeras publicações que flertam com a não ficção podem exercer o papel fundamental que a ficção, desde seu surgimento no século XVIII, exerceu para os leitores: a de forjar uma convicção sem abrir mão de problematizá-la, experimentando também a ambivalência.