Imagem de capa: Renato Mangolin
Bruno Pernambuco
Um grito é um rasgo que se faz sentir, percebido, em primeiro lugar, no tato, na visão e na memória. É o contrário do uso cotidiano da voz. Ao ocupar a audição com uma perturbação completa, dá espaço a outros sentidos e faculdades da alma para receber aquela mensagem.
Há uma boa dose de demiurgia na forma como Gritos, espetáculo da companhia Dos a Deaux, esculpe o silêncio para ambientar suas histórias. O silêncio é absoluto, completo, é, embora não seja um objeto, objeto inteiro e sem aberturas para penetrá-lo. Mas, para personagens tão distintos quanto aqueles que em Gritos se seguem através da tranformação física dos intérpretes e da manipulação dos bonecos e objetos de palco, ele não é a mesma coisa. A unidade dos poemas representados não se faz por uma continuidade direta, retilínea, do silêncio, mas pela forma como esse conceito se adapta, desfaz, e mutila para caber com um sentido único em cada história contada.
Nessa tensão que acompanha todo o espetáculo, desde seu primeiro silêncio, fundado a partir do apagar das luzes, e que sustenta a transição entre as diferentes composições, é quase narrado, ou meio-narrado (ou narrado meio à luz, meio à sombra) um conflito filosófico: a civilização como repressão, como “silêncio lançado sobre as coisas que gritam”- à maneira de Freud, tal como definido por Paulo Leminski em sua biografia do poeta Cruz e Sousa- e a civilização como salvação, como possibilidade de ensinar a falar com sentido, com emoção e estrutura, com organização e com verdade, os grunhidos atormentados que compõe a cacofonia.
Sei que o que eu digo aqui não é mais do aquilo que eu leio nas imagens de Gritos, sem qualquer compromisso com uma representação absoluta da verdade, ou da intenção. Mas, por sua própria natureza, sem escrita, sem representações, o silêncio dá runas particulares para que cada um as interprete de acordo com suas tendências, suas opiniões, considerações, ou com aquilo que nele pode enxergar de seu próprio desconhecido. Os sentidos de Gritos são abertos, múltiplos, ainda que determinados, e não seria possível elaborar, para representar essa abertura, uma forma melhor que o palco ao mesmo tempo diminuto e extenso que concentra toda a ação
As “Formas brancas, alvas, formas claras” da Antífona de Cruz e Sousa certamente caem bem ao espetáculo, mas igualmente o faz o “Rio (ou o riso, contido na ambiguidade da primeira pessoa do singular que narra o poema) do esquecimento tenebroso/amargamente frio”, de seu Esquecimento. O esquecimento transforma tudo aquilo que tangencia. As lembranças do esquecimento são outras, e a memória pela metade, com seu modo específico, sugestivo, de dizer as coisas pode falar mais alto que aquela memória que se assume completa
Gritos é sim, a bem da verdade, um espetáculo fácil de ser admirado, pelos seus inúmeros aspectos positivos: o trabalho impressionante de seus intérpretes, pela dificuldade envolvida e suas coreografias e manipulações, e precisão com que estas são executadas, apresentação após apresentação, a inventividade no uso dos objetos de cena e dos jogos de luzes, que permitem representar no palco construções extremamente complexas e refinadas. Mas- contradizendo a dicotomia erroneamente atribuída à Mário de Andrade, de que tudo tem ou de ser admirado ou de ser amado, e contrariando também a minha própria expectativa, do que pensava dizer ao escrever esse texto- é uma obra muito fácil, embora espinhosa, pois ama-la inclui se reconhecer no papel de quem maltrata e colaboradora com as dores incrustadas nos silêncios do espetáculo, de ser amada.
Isso porque o amor não é uma coisa única, nem é uma única sensação boa, mas é, muito mais, um resultado de todas as transformações que acontecem àquele que o sofre. Toda transformação, alteração do espírito, passagem que faz com que aquilo que foi não possa voltar a ser, é um elogio do amor, que pode acontecer de muitas formas- silenciosamente, de forma contida, numa ironia bem humorada, numa emoção acalentadora, numa tristeza, ou num reconhecimento e numa emoção tão intensos, tão intensos, que, seguindo Eliot, se resolvem num suspiro em vez de num Kabum- mas suspiro esse que funda um mundo, em vez de terminá-lo. O amor de Gritos é assim, difícil, contraditório, temperamental, cheio de pólos, mas também arauto de uma transformação inegável, e de uma certeza sólida e segura- tão certa, e tão imediatamente certa para quem quer que a encontre, que não pode ser expressa totalmente de forma escrita.
Concluindo a mostra Dos a Deux: A Singularidade de uma Trajetória, o espetáculo Gritos é exibido neste domingo, 14/3, às 18h, em transmissão no canal do youtube da companhia. A apresentação é seguida de um bate-papo com os atores.