Não é de hoje que Dumplin' faz o maior sucesso, tanto no Brasil quanto na gringa, mas confesso que só tive vontade de lê-lo após assistir ao filme homônimo na Netflix. Eu gostei muito do filme, porque geralmente quando encontramos enredos sobre meninas gordas, elas simplesmente sofrem muito e vivem uma luta para emagrecer, e não é isso o que acontece com Willowdean Dickson, a personagem principal dessa história.

Will é uma adolescente na casa dos 17 anos que vive uma vida boa e comum. Sua mãe é uma ex-miss e vive preocupada com o sobrepeso da filha, mas Will não se importa nem um pouco. Ela é gorda e ponto final, não acha que essa característica seja um insulto ou um xingamento, muito menos que ela é uma pessoa inferior por causa disso. Sua autoconfiança é realmente incrível, mas dá uma leve balançada quando descobre que o seu colega de trabalho, Bo, também é apaixonado por ela. Quer dizer, tudo bem ela se apaixonar pelo cara mais lindo que estuda no colégio particular, mas ele se apaixonar por ela?

Então, para provar a si mesma que um corpo é apenas um corpo, Will resolver fazer a maior loucura da sua vida: se inscrever para o Concurso Miss Jovem Flor do Texas — sim, o mesmo concurso que sua mãe venceu no passado e agora coordena. O que ela não imaginava é que sua inscrição encorajaria outras meninas "fora do padrão" a fazerem o mesmo, afinal, uma menina é apenas uma menina e deveria, ao menos na teoria, ter as mesmas chances que qualquer participante, não é mesmo?

Há algo no biquíni que faz com as mulheres achem que precisam conquistar o direito de usá-lo. E isso é um absurdo. Na verdade, o critério é muito simples: você tem um corpo, não tem? Então veste um e manda a ver!

Dumplin' pode até se passar em um ambiente escolar, mas é bem diferente de todos os livros que já li do gênero e essa diferença se dá pela protagonista. E não, não é porque ela é gorda, isso não faz uma pessoa diferente. É porque Will é muito real: ao mesmo tempo que demonstra uma força inabalável, mostra, também, que é um ser humano como qualquer outro, cheio de medos e inseguranças. A única coisinha que me incomodou foi o fato de ela ser babaca em vários momentos com sua melhor amiga, Ellen, e com as outras meninas que entraram no concurso.

O mais interessante, imagino, é que Julie Murphy não criou uma protagonista estereotipada, apenas com o intuito de "inspirar" outras meninas gordas. O fato de ela ser muito idiota em alguns momentos e ter vários rompantes de raiva, por exemplo, só mostra que ela é uma adolescente normal. Outro personagem muito bom é o Bo, muito mais que "o aluno popular da escola particular". Na verdade, o simples fato de ele não ser colocado como o macho tóxico babaca — o que é muito comum & romantizado em livros do gênero, acreditem — foi um alívio e tanto para mim.

Apesar de ter gostado muito do livro, Dumplin' é uma das poucas histórias que digo, com certeza, que o filme é melhor. Na produção cinematográfica, Will é mil vezes mais legal e ela resolve participar do concurso por um motivo bem diferente e bem mais bacana, na minha opinião. Ah, a parte do concurso em si também, que já é bem no finalzinho, é infinitamente melhor no filme, já que envolveu uma superprodução — e eu estava esperando isso no livro também. Mas o que importa, na verdade, é que ambos querem passar a mesma mensagem: a gente não tem que ser uma beldade de capa de revista para estar bem, feliz e se sentir poderosa.

Tirando o final meio borocoxô, a obra de Murphy é extremamente leve e divertida, o que faz com que eu me lembre o porquê de eu gostar tanto de young adults. Recomendo veemente a leitura desse livro cujo foco é o romance adolescente, mas recomendo infinitamente mais o filme, que arrasa no quesito amor próprio e autoconfiança.

Título Original: Dumplin'

Autora: Julie Murphy

Páginas: 336

Tradução: Heloísa Leal

Editora: Valentina