Título Original: Sharp Objects

Autor: Gillian Flynn
Páginas: 256
Tradução: Alexandre Martins
Editora: Intrínseca
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Gillian Flynn estourou no Brasil depois do lançamento do livro Garota Exemplar e foi praticamente unânime o reconhecimento do talento da autora, se consideradas todas as resenhas a respeito da obra. Eu não tive a oportunidade de conferir em primeira mão, mas assisti ao filme e fiquei embasbacada com a construção daquele enredo, tanto que permaneci dias chocada com a história de Amy. Desta vez, com Objetos Cortantes, pude compreender um pouco do que está por trás do renome de Gillian Flynn.

Camille Preaker é quem narra os acontecimentos e, em um primeiro momento, a impressão é de que adentramos na vida da personagem em um instante qualquer, que invadimos sua mente sem que ela percebesse e, em razão disso, ela não se preocupa em explicar nada além daquilo que pensa naturalmente. Ela não explica quem é, o que faz, ela somente narra os acontecimentos e deixa o leitor descobrir sua história com o tempo. Essa forma de narrar pode ser frustrante para aqueles que quiserem logo mais informações, mas pode ser perfeita, pois por toda a trama são apresentadas novidades, pequenos detalhes que permitem montar um perfil da protagonista e de todos os outros que interagem com ela.

É fácil perceber que Flynn não se prende a padrões para desenhar seus personagens e acredito que seja por isso que seus textos têm se destacado tanto. Não há vilões ou mocinhos em Objetos Cortantes, há pessoas que agem da forma que agem de acordo com seus motivos, sejam eles condenáveis ou não. 

— Bem, tenho feito algumas matérias importantes. Cobri três assassinatos desde o começo do ano.
— E isso é uma coisa boa, Camille? —  reagiu minha mãe, parando de mordiscar. —  Nunca entenderei de onde vem seu gosto pela feiura. Parece que você tem o suficiente disso na vida sem precisar procurar por vontade própria.

Camille mesmo é o oposto da mulher politicamente correta. Em alguns momentos, cheguei a questionar se ela teria algum filtro, algum discurso moralista, algum padrão do que é certo socialmente, e não, ela não tem. O que significa que, hipócrita, ela não é. Ela é uma pessoa que fez muita coisa moralmente condenável perante a sociedade e que, no entanto, está bem resolvida quanto às suas escolhas, tenham sido elas sensatas ou estúpidas. Mesmo que se pudesse usar o discurso de que a culpa não era sua no caso de Camille, por ela ser da forma que era, ela acreditava que era sim, e assumia a responsabilidade por seus atos.

Além de Camille, são muitos os personagens de destaque, principalmente os femininos. Adora e Amma, mãe e irmã de Camille, respectivamente, eram o retrato de pessoas problemáticas que vivem em famílias inconstantes moldadas pela sociedade. Adora, a mãe, que se portava perfeitamente perante os outros, nada tinha a dar às filhas dentro de casa; Amma, de apenas 13 anos, que na frente da mãe era a garotinha frágil, tornava-se a mulher fatal ao sair da porta para fora. Enquanto isso, “má” gritava na pele. 

Os conflitos internos da protagonista ocuparam em grande parte a obra, mas os assassinatos aos quais ela foi cobrir, como jornalista, em sua cidade natal, também tiveram o espaço apropriado. Desde o início, elaborei uma teoria e apontei um suspeito, que mais tarde viria a ser descoberto também pela polícia. Porém, é claro que não seria tão simples e um elemento surpresa ainda foi apresentado para rematar o final.

Se Garota Exemplar é o melhor livro de Gillian Flynn, não sei dizer. Mas Objetos Cortantes remexe a natureza humana como poucos têm coragem de fazer, é perturbador, mas por isso mesmo incrível.