Em Viagem ao Princípio do Mundo, um velho realizador regressa aos lugares da infância. O recorte da fisionomia e o chapéu são, inequivocamente, os de Manoel de Oliveira. Procura o seu lugar numa sucessão de eventos políticos, numa cadeia genealógica, cata raízes, vestígios. A viagem — a indagação — é tão exterior quanto íntima. O automóvel aciona a deslocação e a permanência, transporta. A máquina de filmar é o dispositivo que fixa a memória, resgata o concreto e o simbólico.

Neste filme de 1997, Oliveira usa as máquinas para “falar a sua fala”, reconstitui uma autobiografia mais assente na errância e na dúvida do que nas paredes firmes de um colégio jesuíta, escuta a ressonância (afetiva e fetichista) que vem com o fato de marinheiro de Leonor Silveira (encarnação da juventude). Tinha 88 anos quando encenou esta viagem. O que o terá posto na trilha dos seus passos? Porque identificou estes e não outros lugares e assuntos como sendo os do seu próprio princípio?

A famosa roda gigante de O Terceiro Homem encerra algumas destas questões: por definição, uma roda é o que não tem começo nem fim, é movimento e suspensão, é metáfora de vida e viagem, espaço onde estamos embarcados, e de onde, um dia, caímos (ou somos empurrados).

Este ano, entre março e novembro, o ciclo Um Filme Falado anda em bolandas sem sair do lugar. Explora a noção de viagem, os objetos, máscaras, mecanismos, os caminhos largos e os desvios, o tempo subjetivo e o tempo cronológico. São os temas, declinados sessão após sessão, que organizam a escolha dos filmes e suscitam a discussão entre os convidados. O ciclo mantém igualmente o princípio de dar a ver, em sala, alguns dos maiores exemplos da história do cinema, tratando filmes de cineastas de referência, dos quais Manoel de Oliveira, eterna e destacadamente, se faz acompanhar.

 

Oliveira, Viagem ao Princípio do Mundo

14 Março

Leonor Silveira, actriz

Margarida Cardoso, cineasta

 

Nicholas Ray, Matar ou não matar

11 Abril

Delfim Sardo, programador cultural

Tiago Guedes, cineasta

 

Kinuyo Tanaka, Carta de amor

23 Maio

Ana Gabriela Macedo, prof. Literatura

Joana Machado, designer

 

Dino Risi, A ultrapassagem

13 Junho

Eduardo Brito, escritor e cineasta

Rodrigo Areias, cineasta

 

Bergman, Noites de Circo

4 Julho

Vítor Constâncio, economista

João Rosas, cineasta

 

Ida Lupino, O Bígamo

12 Setembro

Kathleen Gomes, consultora e gestora cultural      

Manuel Loff, historiador

 

Hitchcock, A corda

10 Outubro

Victor Hugo Pontes, encenador

Augusto Santos Silva, sociólogo

 

Carol Reed, O Terceiro Homem

14 Novembro

Ângela Ferreira, artista plástica

Regina Pessoa, cineasta

 

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