Os meus posts preferidos do mundo de ler são as retrospectivas literárias, então nada melhor do que manter essa tradição aqui no blog. Em 2017 eu não li tanto quanto gostaria, inclusive li bem menos que todos os outros anos, mas ainda assim foi muito proveitoso. Li muita coisa legal e é sobre essas leituras que vou conversar hoje. Os livros estão em ordem de leitura, não de preferência.
A Menina Que Não Acredita em Milagres
Wendy Wunder
Editora Novo Conceito
Campbell tem 17 anos.
Ela não acredita em Deus.
Muito menos em milagres.
Cam sabe que tem pouco tempo de vida, por isso quer viver intensamente e fazer tudo o que nunca fez, no tempo que lhe resta. Mas a mãe de Cam não aceita o fato de perder a filha, assim, ela a convence a fazer uma viagem com ela e a irmã para Promise um lugar conhecido por seus acontecimentos miraculosos. Em Promise, Cam se depara com eventos inacreditáveis, e, também, com o primeiro amor. Lá encontra, finalmente, o que estava procurando mesmo sem saber. Será que ela mudará de ideia em relação à probabilidade de milagres? A Menina que não Acredita em Milagres vai fazer você rir, chorar e repensar sua conduta de vida.
Eu sou muito chegada nesses livros bem dramáticos e não nego. A Menina Que Não Acredita em Milagres e um sick-lit, mas é diferente de todas as coisas que eu li do gênero. É uma história muito bonita que mostra como é importante viver o presente e aproveitar as pequenas coisas do nosso dia-a-dia.
Ferenc Molnár
Editora Companhia das Letras
Publicada em 1907, a história dos meninos que travam batalhas pela posse do “grund” da rua Paulo, um pedaço de terra cercado onde se brinca à vontade, é conhecida por leitores de todo o mundo. A luta pelo “grund” vai além da vontade de comandar o local: ali, infância e fantasia prevalecem sobre as imposições do mundo adulto. O espírito de aventura, amizade e heroísmo presente nesta obra é capaz de transpor qualquer barreira de tempo, espaço ou idade. Esta nova edição conta com, além dos textos presentes na anterior, uma orelha assinada por Luiz Schwarcz, um posfácio de Michel Laub e um glossário.
Acredito que não é atoa que Os Meninos da Rua Paulo é considerado um dos livros mais famosos da Hungria. Apesar de ser um clássico, não possui aquela narrativa extremamente difícil que afasta as pessoas e eu o considero uma leitura obrigatória pela forma como mostra a amizade dos personagens. Ah, o final é arrebatador, acabou comigo de todas as formas.
Victoria Schwab
Editora Seguinte
Kate Harker e August Flynn vivem em lados opostos de uma cidade dividida entre Norte e Sul, onde a violência começou a gerar monstros de verdade. Eles são filhos dos líderes desses territórios inimigos e seus objetivos não poderiam ser mais diferentes. Kate sonha em ser tão cruel e impiedosa quanto o pai, que deixa os monstros livres e vende proteção aos humanos. August também quer ser como seu pai: um homem bondoso que defende os inocentes. O problema é que ele é um dos monstros, capaz de roubar a alma das vítimas com apenas uma nota musical. Quando Kate volta à cidade depois de um longo período, August recebe a missão de ficar de olho nela, disfarçado de um garoto comum. Não vai ser fácil para ele esconder sua verdadeira identidade, ainda mais quando uma revolução entre os monstros está prestes a eclodir, obrigando os dois a se unir para conseguir sobreviver.
O motivo de eu ter gostado tanto de A Melodia Feroz foi ele ser uma metáfora excelente para a violência que insiste em estar presente na nossa sociedade. A fantasia criada por Victoria Schwab é nada menos que sensacional. Além disso, é impossível não se apegar aos personagens.
Saroo Brierley
Editora Record
A história que deu origem ao filme Lion: uma jornada para casa, com Dev Patel. Aos 5 anos, Saroo pede ao irmão mais velho que o deixe acompanhá-lo à cidade onde ele passava os dias em busca de dinheiro e comida. Durante a viagem, o menino adormece. Ao despertar, confuso, se vê sozinho na estação de trem. Ele não sabe onde está o irmão, mas vê um trem parado. Imaginando que Guddu poderia estar lá dentro, Saroo embarca no vagão, e isso o faz atravessar a Índia. Sem saber ler nem escrever, e sem ideia do nome de sua cidade natal ou do próprio sobrenome, ele é obrigado a sobreviver sozinho nas ruas de Calcutá até ser levado para uma agência de adoção e ser escolhido por um casal australiano. Os anos se passam e, ainda que se sinta extremamente agradecido pela nova oportunidade que os Brierleys lhe proporcionaram, Saroo não esquece suas origens. Até que, com o advento do Google Earth, ele tem a oportunidade de procurar pela agulha no palheiro que costumava chamar de casa, e investiga nas imagens de satélite os marcos que poderia reconhecer do pouco que se lembra de sua cidade. Um dia, depois de muito tempo de procura, Saroo encontra o que buscava, mas o que acreditava ser o fim da jornada é apenas um novo começo.
Impossível não se emocionar com a história de Saroo, que se perdeu do irmão mais velho em uma estação de trem quando tinha apenas cinco anos e reencontrou a família biológica 25 anos depois. É realmente uma história de superação. O livro deu origem ao filme Lion: Uma Jornada Para Casa, que é maravilhoso e conta com Dev Patel no papel do protagonista.
Holly Black
Editora Galera Record
Uma história repleta de magia e mistérios, da autora de As Crônicas de Spiderwick. Hazel e seu irmão, Ben, moram em uma cidade onde humanos e fadas convivem. A magia aparentemente inofensiva desses seres atrai turistas de todas as partes, que querem ver de perto as maravilhas do lugar e, principalmente, o garoto de chifres e orelhas pontudas que descansa em um caixão de vidro. Hazel e Ben eram fascinados pelo garoto quando crianças. Mas, à medida que crescem, as histórias e teorias que inventavam perdem o encanto. Eles sabem que o garoto de chifres nunca acordará... Até que um dia ele acorda. Agora, os irmãos precisam se tornar os heróis que fingiam ser em suas brincadeiras e desvendar os mistérios que envolvem aquele príncipe com chifres.
Este é provavelmente o YA mais criativo que já li na vida. Holly Black conseguiu acrescentar a fantasia ao livro de uma forma que combinou bastante. A história não tem nada de complicado e é justamente esse ponto que cativa. Não é porque é simples que não mantém a curiosidade da gente do início ao fim.
Krystal Sutherland
Editora Globo Alt
Grace Town é esquisita. E não é apenas por suas roupas masculinas, seu desleixo e a bengala que usa para andar. Ela também age de modo estranho: não quer se enturmar com ninguém e faz perguntas nada comuns. Mas, por algum motivo inexplicável, Henry Page gosta muito dela. E cada vez mais ele quer estar por perto e viver esse sentimento que não sabe definir. Só que quanto mais próximos eles ficam, mais os segredos de Grace parecem obscuros. Mesmo que pareça um romance fadado ao fracasso, Henry insiste em mergulhar nesse universo misterioso, do qual nunca poderia sair o mesmo. Com o tempo, fica claro para ele que o amor é uma grande confusão, mas uma confusão que ele quer desesperadamente viver.
Ai gente, esse livro é simplesmente maravilhoso. O enredo simples encanta, o tema principal foi retratado com uma fidelidade imensa e a autora nos presenteia com personagens reais, que sofrem coisas reais e foi isso que pegou o meu coração. Está no hall de leituras preferidíssimas do ano.
Angie Thomas
Editora Galera Record
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.
Sem sombra de dúvidas O Ódio Que Você Semeia foi o livro mais forte que li em 2016. O que acontece com os personagens da história é tão real que a gente se sente completamente desconfortável e triste, até mesmo culpados por tanta coisa injusta acontecer. Sempre quando lembro desse livro fico com aquela vontade de chorar no fundo da garganta.
Benjamin Alire Sáenz
Editora Seguinte
Salvador levava uma vida tranquila e descomplicada ao lado de seu pai adotivo gay e de Sam, sua melhor amiga. Porém, o último ano do ensino médio vem acompanhado de mudanças sobre as quais o garoto não tem nenhum controle, como ímpetos de raiva que ele não costumava sentir. Além disso, Salvador tem que lidar com a iminente morte da avó, com uma tragédia repentina que acontece na vida de Sam e com o fato de seu pai estar se reaproximando de um ex-namorado. Em meio a esse turbilhão de sentimentos, que vão do luto ao amor e da amizade à solidão, Sal passa a questionar sua própria origem e identidade, e tenta encontrar alguma lógica para a sua vida uma tarefa que parece quase impossível.
Quando me perguntam qual o melhor livro que li em 2016, A Lógica Inexplicável da Minha Vida é o primeiro que se passa em minha cabeça. Os personagens são maravilhosos, a sensibilidade que o autor usa para falar sobre o tema principal, família, são pontos que fazem esse livro ser tão incrível. Benjamin Alire Sáenz acertou muito, assim como em Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo.
Liev Tolstói
Editora Companhia das Letras
Em tradução de Rubens Figueiredo, com posfácio de Janet Malcolm, a obra-prima de Liev Tolstói retrata o caso de infidelidade da aristocrata Anna Kariênina, tendo como cenário uma Rússia decadente. "Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de luz”, escreve Liev Tolstói no romance que Fiódor Dostoiévski definiu como "impecável”. Publicado originalmente em forma de fascículos entre 1875 e 1877, antes de finalmente ganhar corpo de livro em 1877, Anna Kariênina continua a causar espanto. Como pode uma obra de arte se parecer tanto com a vida? Com absoluta maestria, Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista. Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento: não há heróis, tampouco fracassados, e sim pessoas complexas, ambíguas, que não se restringem a fórmulas prontas. Religião, família, política e classe social são postas à prova no trágico percurso traçado por uma aristocrata casada que, ao se envolver em um caso extraconjugal, experimenta as virtudes e as agruras de um amor profundamente conflituoso, "feito de sombra e de luz”.
Anna Kariênina foi um livro que me pegou de surpresa em 2016, porque eu sinceramente não esperava tanto — até porque só comecei a ler porque a Companhia das Letras lançou essa edição. O que me fez gostar de verdade dessa história foi que o autor retratou um adultério envolvendo uma mulher, numa sociedade em que a mulher não podia lá fazer muita coisa. Obviamente sou contra tudo o que Anna faz, mas é possível ver como as opiniões sobre traição são diferentes quando a parcela que trai não é um homem.
Em 2017, assim como os outros anos, eu li mais livros ótimos do que livros péssimos — e alguns medianos, é claro — e a maioria recebeu uma nota muito boa no Skoob. Fico feliz que as editoras estejam investindo em tanta coisa boa. Comentem aqui em baixo se vocês já leram algum dos meus citados e não se esqueçam de me contar o que vocês leram de bom também.








