Mario Vargas Llosa desviou-se da ficção para reunir algumas crónicas e sistematizar algumas das suas convicções relativamente ao estado da nossa civilização, sobretudo no que diz respeito à cultura. Temos grandes divergências ideológicas e isso deixava-me de pé atrás, mas não tinha como fugir a este livro, esta coisa da «civilização do espetáculo» intriga-me muito.
Vargas Llosa define-a como «a de mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigente é ocupado pelo entretenimento». Logo a seguir acrescenta que considera-o um ideal de vida «perfeitamente legítimo» e nisso estamos de acordo. O problema, continua, é esta forma sistemática de nos rodearmos de distrações para «não nos aborrecermos, evitarmos o que perturba, preocupa e angustia». Resumindo, a cultura vigente alheia-nos de pensar. Por isso preferimos mensagens rápidas, sintetizadas, com realidades óbvias ou bem explicadas, com imagens em vez de letras que nos poupem até do uso da imaginação.
Deixamo-nos influenciar e não nos importamos que decidam por nós, pior, secretamente até gostamos. E quem é que dita as tendências e tolda a opinião pública? Cantores, jogadores de futebol, participantes em reality shows. O mediatismo substituiu o valor intelectual nas situações mais bizarras (Jardel eleito deputado estadual?). Esta é a era em que o marketing e a propaganda são mais importantes para vender um produto do que a sua qualidade inerente.
Identifico muitas destas observações, mas não posso concordar com todas as acusações feitas, principalmente quando se fala em insensibilidade e bisbilhotice extrema. O exemplo dado é forte: em pleno estouro da crise económica em 2008, enxames de paparazzi esperavam que o primeiro broker se atirasse de um arranha-céus. Mas a raça humana não foi sempre assim? Há centenas de anos, não nos juntávamos aos milhares para assistir em êxtase a uns quantos hereges a serem queimados na fogueira? E as cortes? Não eram um antro de bisbilhotice? Insensíveis e bisbilhoteiros, sim, mas isso não é de hoje.
Pegando sempre no pressuposto de que o que interessa a esta civilização é o entretenimento, são vários os assuntos abordados: a morte do erotismo, o jornalismo sensacionalista que se pratica («as coisas agravam-se se o jornalismo, em vez de exercer a sua função fiscalizadora, se dedicar sobretudo a entreter os seus leitores, ouvintes e telespectadores com escândalos e bisbilhotices.»), a imoralidade na política e a indiferença dos cidadãos que a encaram com «a resignação e o fatalismo com que se aceitam os fenómenos naturais». O último capítulo versa sobre religião e o autor dá a sua opinião sobre a importância da espiritualidade.
Quero salientar um ponto que me é caro: a democratização da cultura. Somos ambos a favor, «a cultura não podia continuar a ser o património de uma elite, uma sociedade liberal e democrática tinha a obrigação moral de pôr a cultura ao alcance de todos, através da educação, mas também da promoção e da subvenção das artes, das letras e restantes manifestações culturais». O principal erro foi termos nivelado por baixo, achámos que, para chegar a todos, a cultura tinha de se tornar mais acessível («um certo facilitismo formal e a superficialidade do conteúdo dos produtos culturais se justificavam em virtude do propósito cívico de chegar ao maior número. A quantidade a expensas da qualidade.»). Rotulámos a Humanidade de estúpida, colocámos a matulona na piscina das crianças.
Não acho, como o autor, que este seja um problema sem solução. Até porque ela é óbvia: para sair desta chafurdice basta saber pensar. Ninguém nos vai ensinar a fazê-lo, porque não é conveniente, mas também não é preciso, a biologia soube assegurar os meios.
Discutir. Ter uma opinião. Escutar, ver, (ler), com a mente aberta mas assegurando um pensamento crítico. Definir valores. Saber julgar. Questionar cada afirmação. Ou parágrafo.
Nunca, nunca, anuir sem pensar. Esse erro crasso, e preguiçoso, foi precisamente o que nos fez chegar aqui.
Citações:
«A raiz do fenómeno está na cultura. Melhor dizendo, na banalização lúdica da cultura reinante, em que o valor supremo é agora divertir-se e divertir, acima de qualquer outra forma de conhecimento ou ideal. As pessoas abrem um jornal, vão ao cinema, ligam a televisão ou compram um livro para passar bem o tempo, no sentido mais ligeiro do termo, e não para martirizar o cérebro com preocupações, problemas, dúvidas. Só para se distraírem, esquecerem-se das coisas sérias, profundas, inquietantes e difíceis e entregarem-se a um devaneio leve, agradável, superficial, alegre e saudavelmente estúpido. E há algo mais divertido do que espiar a intimidade do próximo, surpreender um ministro ou um deputado em cuecas, averiguar os deslizes sexuais de um juiz, verificar que chapinham no lodo aqueles que passavam por respeitáveis e modelares?»
«Os homens empenham-se em acreditar em Deus porque não confiam em si mesmos. E a História demonstra-nos que não lhes falta razão, pois até agora não demonstrámos ser fiáveis.»
«No passado, a cultura foi frequentemente a melhor chamada de atenção para semelhantes problemas, uma consciência que impedia que as pessoas cultas virassem as costas à realidade crua e dura do seu tempo. Agora, acaba por ser mais um mecanismo que permite ignorar os assuntos problemáticos, distrair-nos do que é sério, submergir-nos num momentâneo "paraíso artificial", pouco menos do que o sucedâneo de uma baforada de marijuana ou uma linha de coca, isto é, umas pequenas férias de irrealidade.»