Dark Academia é o novo queridinho dentre os gêneros literários. Assim como acontece na música e no cinema, o TikTok é responsável por esse hype. Com uma estética colegial sombria, cheia de tons terrosos e outonais e uma vibe culta, o Dark Academia vem conquistando os jovens leitores. E a estética é realmente linda: mocassim, tweed, xadrez, camisa social, boina, blazer, sobretudo e tudo que pareça vintage e aparente inteligência. Quando se trata de literatura, os livros Dark Academia se passam em ambientes acadêmicos e possuem uma atmosfera sombria e misteriosa, o que pode ser composto por enredos que envolvam investigações, assassinatos e magia.
Me interessei pelo gênero por gostar da estética. Pessoas introvertidas e que amam estudar certamente são as mais atraídas por essa sobriedade. Porém, na minha experiência, a estética prometeu muito e os livros entregaram pouco. Três leituras foram o suficiente para me mostrar que esse gênero não é pra mim.
Comecei com um livro que é considera um dos primeiros do gênero: A História Secreta. Depois, fui para um sucesso russo: Vita Nostra. E finalizo essa jornada com A Sociedade de Atlas, um grande hit do TikTok internacional e que chega ao Brasil pela editora Intrínseca. E eu preciso dizer: que edição belíssima. A editora se dedicou e entregou uma edição que dá gosto de ter na estante, ilustrada e lindamente diagramada.
Mas vamos lá: A Sociedade de Atlas é sobre uma sociedade secreta que seleciona, a cada 10 anos, 6 jovens adultos mágicos para competirem entre si pela permanência na Sociedade Alexandrina, que abriga o conhecimento perdido das grandes civilizações da Antiguidade. Dos 6 selecionados, 5 permanecerão.
Os competidores que iremos acompanhar ao longo do livro são: os físicos Libby e Nico, a naturalista Reina, a telepata Parisa, o empata e manipulador emocional Callum, e Tristan, que consegue ver através das ilusões. E é aqui que o problema começa: Todos os personagens são chatos, chatos mesmo. E não me entendam mal, porque eu adoro personagens controversos, defeituosos, ambíguos e maus. Mas os personagens desse livro são apenas chatos. E o pior: eles não sabem que são chatos. Eles se acham incríveis, mas são todos mesquinhos, prepotentes e hipócritas. Nota 0 em carisma e personalidade.
Os personagens não tem personalidade própria e voz própria. São todo iguais, com as mesmas ambições e a mesma falta de profundidade. Os primeiros capítulos do livro, que supostamente servem pra apresentar os personagens, são terrivelmente cansativos, porque não tem nada que diferencie os personagens. Parece que a autora copiou e colou os capítulos um depois do outro e só mudou algumas palavras. Além de chatos, os personagens são superficiais. Apesar de serem jovens adultos, todos com mais de 20 anos, os personagens se comportam como adolescentes antipáticos, se recusando a colaborar uns com os outros e reproduzindo o tempo todo o discurso de "Eu sou mais forte que você" e bla bla bla.
O sistema de magia é interessante e bem diferente de tudo que eu já li. Mas o livro demora muito pra mostrar essa magia acontecendo. Os personagens só ficam dizendo: "Eu sou muito poderoso. Eu sou mais forte que todo mundo. Minha magia é incrível". E eu tipo: "Ok, então me mostra".
E o livro é leeeeeento (o que parece ser um ponto em comem entre os livros Dark Academia). Nada acontece. É aquele livro que conta muito e mostra pouco. E, para piorar, está lotado de frases de efeito e reflexões óbvias ditas como se fossem grandes descobertas. Querem um exemplo? Um personagem pergunta o que eles estão comemorando e o outro responde: "Nossa mortalidade frágil. A inevitabilidade de nos reduzirmos a caos e poeira." Ai não, gente, sério?
Tem uma coisa (extremamente óbvia) que os personagens descobrem e o livro passa muitas e muitas e muitas páginas focado nesse fato óbvio, que nem é interessante, mostrando os personagens contando uns aos outros sobre isso e sempre tendo as mesmas reações ("não, não é possível"). Poderosos? Talvez. Mas inteligentes? Definitivamente não.
Os personagens passam boa parte do livro tentando convencer uns aos outros que eles não se importam com nada, que eles não ligam pra ninguém, que são super seguros, indiferentes, inabaláveis e exaustivamente presunçosos. Uma espécie de niilismo soturno exagerado e cansativo. Perdi a conta de quantas vezes eu revirei os olhos. Querem outro exemplo? Olha essa fala do personagem: "Eu? Eu nunca me desespero. Estou perpetuamente indiferente." Aiiiiii a vergonha alheia que eu sinto.
Reina foi a única personagem com quem eu consegui (um pouco, bem pouco mesmo) simpatizar. Apesar de ela ser egoísta e amargurada, a disputa de ego não é tão evidente da parte dela e eu gostei muito dos momentos em que as plantas se comunicavam com ela.
Mas, continuando: O homem que recruta esses jovens é Atlas. Fiquei curiosa e fui pesquisar um pouco mais sobre o Atlas da Mitologia Grega. Atlas (o da mitologia) desejava o poder supremo. Ele travou uma guerra contra os deuses em busca disso, mas foi derrotado e condenado a segurar o planeta nas costas. A busca pelo poder condiz bastante com o que o Atlas (do livro) e a Sociedade Alexandrina desejam e buscam. Inclusive, essa sociedade guarda e protege o conhecimento e acredita que ele não deve ser distribuído livremente. Essa questão de como eles lidam com o conhecimento é um debate bem interessante que o livro traz. O conhecimento deve ser distribuído livremente ou nem todos conseguem lidar com ele?
O livro também tem um toque bastante sexual em algumas passagens, o que foge totalmente do tom geral do livro, deixando esses momentos esdrúxulos e forçados. Eu senti que a autora queria provar como sua história era madura e adulta, mas a forma como os personagens se comportam o resto do tempo não convence o leitor disso.
Em alguns momentos, a sensação era de que o livro era tão ruim que chegava a ser bom. Eu lia porque achava engraçado e tosco. Mas depois, pasmem: até que começou a ficar bom mesmo. Lá pela metade do livro, algumas coisas realmente começam a acontecer, os personagens finalmente começam a usar e mostrar seus poderes e mistérios são inseridos na trama. Não que o livro fique ótimo, mas melhora. A maior parte do livro é composta por diálogos. Eita povo que conversa. Eles parecem estar no caminho para algo, mas é difícil entender e acompanhar porque, como ninguém confia em ninguém, eles não conseguem se comunicar abertamente e com sinceridade. Esses diálogos são, em sua maioria, sobre quem deve ser o eliminado entre eles.
Enquanto isso, alguns deles lidam com problemas particulares. Dos dilemas particulares dos personagens, o que mais me interessou foi a questão envolvendo Gideon, amigo não humano de Nico.
Enfim, posso dizer que minha experiência de leitura foi mais negativa do que positiva. O livro é prepotente, os personagens beiram o insuportável e os debates que o livro propõe, apesar de serem interessantes, não compensam todo o resto. Acho que essa história pode funcionar melhor com os mais jovens (o que explica seu sucesso no TikTok).
Título Original: The Atlas Six ✦ Autora: Olivie Blake
Páginas: 448 ✦ Tradução: Karine Ribeiro ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora

