A MÚSICA

A música partilha com a flor

a carne que se alaga como um copo.

A música é um rizoma atómico

cheia de sílabas grossas e finas

no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor

também. E se te digo sei que ficas

triste e é quando substituis essa

geração de força por dois pequenos

vasos à entrada do teu dorso (e qual

és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.

O vestido é branco e aponta

a cidade a que chegas com os

dedos, rodando os ombros mas

não a cabeça. O teu olhar

é uma ferida musical sem verbo fixo:

a penumbra bate às vezes na

pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio

impulso, como se fosse o preen-

chimento de uma forma: chama-se amor

e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar

do desejo, esses versos de asa silenciosa-

ouves?

Há poetas azuis que julgam que a

coerência é um pardal azul (da goela

até aos pés). Normalmente limpam os óculos

com coerência, em vez de com (enfim)

e depois vêem o mesmo pardal, a todas

as horas do dia e da noite, sentado azul-

mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos

não caem se mudares constantemente

o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-

ção do vento sabe do remorso dos bichos mais

pequenos: procura as palavras junto ao chão

e se não me vires,

é porque o silêncio é também a música

e canto-a sem nome

para ti

Rui Costa

in Um poema para Fiama

Labirinto

2007

 

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