Lendo os epigramas de Paladas de Alexandria, escritos no século IV D.C., descubro esta preciosidade:

“IX: 169
A cólera de Aquiles foi motivo, para mim também,
de funesta pobreza ao me tornar gramático.
Prouvera com os gregos me matasse aquela cólera antes
que me arruinasse a amarga fome da gramática.
No entanto, para que Agamemnon roubasse Briseida e Páris
roubasse Helena, foi que me fiz indigente.”

Inúmeros epigramas de Paladas são dedicados ao seu desconforto com a profissão que lhe foi legada pelos seus talentos, a de gramático. Acredito que “gramático” seja um equivalente atual para “professor de Literatura”. Em quase todos os seus lamentos, ele menciona que a gramática lhe deixou mais pobre e mais faminto. No entanto, em um paradoxo singular, ele reafirma o seu amor à profissão de gramático, afirmando que continuará nela até morrer (IX: 171). Também fala da mulher briguenta, dizendo que tanto ela quanto a gramática são fados que precisa suportar. No entanto, não larga nem uma e nem outra (IX: 168).

De certa maneira, estes problemas não mudaram até hoje, tanto as mulheres briguentas quanto a profissão de “gramático”!
Quanto mais eu leio os Epigramas, mais me convenço de que Paladas era um homem moderno inserido na época errada. Ou, talvez, fosse um homem antigo inserido em uma época então moderna. Mas gosto da ideia de que ele esteja no tempo errado e na vida errada, como uma pessoa que entrasse sem querer em um teatro e acabasse aparecendo acidentalmente no meio de uma peça. Incapaz de interromper o fluxo do acontecimento, passa a seguir os atores e até mesmo cria gosto pela sua interpretação, ainda que se sinta desconfortável e prestes a levantar e sair do teatro tão logo descubram o seu embuste.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo