
Todas somos, de alguma (e diferente) forma, a Jane, a Madeline ou Celeste. "Pequenas Grandes Mentiras" é, na verdade, um bom exemplo da vida real: todos mentimos em algum momento (provavelmente sobre um ou outro acontecimento do nosso passado - nem que seja com um simples "está tudo bem") e todos gostamos de manter as aparências para o exterior. O problema é quando essas mentiras se tornam no centro da nossa vida; quando se transformam nos nossos alicerces e construímos um castelo em cima de vigas de areia. E todas as personagens deste livro têm telhados de vidro no que às mentiras diz respeito - como todos temos, na vida real.
Decidi ler Liane Moriarty depois de ter ouvido rasgados elogios à sua narrativa no podcast "Vale a Pena", da Mariana Alvim. Não foi este o livro mais visado da autora nos vários comentários feitos por alguns convidados, mas pareceu-me um bom ponto de partida, por ter sido uma obra bastante badalada devido à sua adaptação a série. E a verdade é que não desapontou: a capacidade de nos envolver no enredo, a dúvida constante e a empatia com as personagens não falha - e é o mix perfeito para nos agarrar ao livro, do princípio ao fim. Moriarty não se fica pela clássica dúvida de "quem será o assassino". Aqui, nem sequer sabemos o assassinado, deixando-nos numa ânsia louca para folhear as páginas finais do livro!
A forma como a obra está escrita e construída, sem libertar spoilers a não ser na altura pretendida, é muito boa; a ideia dos depoimentos no final de cada capítulo aguça ainda mais o apetite e engana em vez de ajudar a resolver o mistério - o que ainda torna tudo mais intrigante. Esta era a característica mais mencionada sobre a autora, no podcast: no final, o plot twist é sempre inesperado, por muito bem que já conheçamos a escrita de Moriarty. Eu não sou o estilo de leitora que se agarra a um livro até saber o desfecho nem ocupo a mente em tentar deslindar mistérios, mas gostei muito desta fórmula, que só vem confirmar tudo aquilo que ouvi sobre a autora nos últimos tempos. Como tal, não creio que esta seja a minha última leitura da escritora australiana.
Única nota negativa a apontar: achei a desconstrução da narrativa, no final, muito repentina. Passamos 400 páginas a aprender sobre a dinâmica de Pirwee e de quem a habita, desvendando segredos aos pouquinhos, mas plantando muito mais dúvidas à medida que vamos folheando - e, do nada, descobrimos tudo rapidamente. Muitas das maiores revelações são feitas até de forma "seca", rápida e crua, qual penso rápido. Parece que a autora estava em ânsias para escrever o livro, depois de todo o cuidado e suspense que teve até aquele ponto. Há uma parte de nós que fica feliz, pois satisfaz-nos a curiosidade mórbida de saber o morto e o assassino - mas não diria que a narrativa sai a ganhar.