ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 13) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. I de XVIII} * [ vol. I ]
história de Portugal, biografia, Luís de Camões, demografia histórica, literatura clássica
... «A Península Hispânica que no tempo dos Sufetas chegara a contar cinquenta milhões de habitantes, depois dum milenário de paz absoluta, com o furacão das conquistas e descobertas baixara para dez. Portugal, a quem por tabela competiam na fase áurea, os seus cinco a seis milhões, com D. João III estava em pouco mais de milhão e meio de almas. Filipe II, depois da batalha de Alcântara com a tropa mista do prior do Crato, incorporou apenas um milhão de vizinhos nos seus estados. Sob D. Sebastião a população continuara a fundir-se como neve a um sol bravo de deserto. Nada menos de quinhentos mil habitantes de desfalque, com a voragem de homens que se tornara o Oriente, a África, e uma navegação temerária e irresponsável, a que havia a acrescentar uma gadanha de primeira: a peste. O movimento demográfico fazia-se ao ritmo inverso da progressão natural. O país pagava a letra da glória antes do prazo e com juros de esganar. Mas foi sempre assim. A fortuna traz em seu manto cesáreo estes reversos de miséria e de morte.Foi num ambiente de desequilíbrio e decadência acelerada que Luís de Camões veio ao mundo. Lisboa, ao passo que empestava como nateiro, exibia as nebulações mais imprevistas de atmosfera moral. Mas pois que fora esse o seu tavolado conhecido, ali viviam seus pais, exerceu a sua arte, decorreu o seu currículo notório, veio morrer como pássaro que volta ao ninho, à falta de factos, ostensivamente em contrário, não havia que pôr sequer o problema do local do seu nascimento. Mas isso tem alguma importância? Tem-na meramente acidental na biografia de grande personalidade. O berço em si não confere qualidades particulares ao homem. Basta saber-se que nasceu em Portugal, o mais é competição de campanário. Mas os bairristas, escavadores de lápides, transformaram este caso em problema que se pluralizou. Nasceu em Lisboa? Em Coimbra? Em Alenquer? Em Santarém?Os primeiros biógrafos dão-no como nado em Lisboa e, à falta de certidão de idade, esses contam. Rebuscando na sua obra dados, menções de natureza mais ou menos pessoal, em regra subjectivas, postas na balança, fazem incidir para Lisboa o ponteiro das probabilidades.» ...(continua)
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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