Por Maria Andréa S. de A. Nascimento

Zuleide era uma jovem de família muito rica, da cidade de Forte da Mata e seu sonho era casar-se com Juca, que ela acreditava ser seu verdadeiro amor. O pai dela, seu Inácio, tinha três filhas e almejava o melhor futuro para elas: casar-se com filhos de fazendeiros. Angelina, a mais nova, e Joana, a filha do meio, casaram-se com os filhos de seu Nonato, de família bem sucedida, com muitos hectares de terras e fazendas imensas. Seu Inácio estava muito contente com a situação de suas filhas, pois sua esposa tinha morrido e ele era a única pessoa com quem elas poderiam contar.

A história de Zuleide não poderia ser diferente, pensava seu Inácio:

– Ela terá que me dar o mesmo gosto que as outras me deram, ele costumava dizer.

Zuleide era a filha mais velha e sabia que só se casaria por amor, diferente das suas duas irmãs, que se casaram por obediência ao pai. Ela era apaixonada por Juca, que não gostava dela, mas Zuleide alimentava esse amor platônico e sonhava um dia casar-se com ele. Seu Inácio não gostava nem um pouco da idéia, pelo fato de Juca ser bastante pobre, pois ele queria a mesma sorte para todas as suas filhas, e já havia prometido uma surra a Zuleide caso ela se aproximasse do rapaz.

Zuleide ainda não tinha tentado namorar Juca, mas acreditava que era possível, pois ela se considerava muito decidida e sempre corria atrás de seus objetivos, não se importando em desobedecer a seu pai. Certo dia, estava passando pela casa de sua amiga Joaquina, quando avistou Juca. Ela foi imediatamente ao seu encontro para puxar conversa. Juca, muito educadamente, correspondeu às conversas de Zuleide, mas, em seu íntimo só queria ir embora logo, pois já estava caindo a noite e ele precisava fechar a porta para as três ovelhas que criava no fundo de sua casa.

O tempo passava e Zuleide se tornava mais obcecada por Juca; na mente dela, só ele poderia fazê-la feliz. Ela não estava conformada com o fato de Juca não a querer como mulher, e acabou procurando Aparecida, sua melhor amiga, para poderem armar uma cilada para que Zuleide ficasse grávida de Juca. Zuleide imaginava que assim todos os seus problemas seriam resolvidos: ele iria casar-se com ela e os dois seriam felizes para sempre.

Aparecida tinha muita intimidade com Juca e o trouxe até a sua casa dizendo que precisava de alguém para trocar o botijão, já que seu pai havia ido trabalhar na roça. Logo depois disso, Zuleide simulou que estava chegando à casa de Aparecida naquele exato momento, aproveitando a oportunidade para iniciar uma conversa com o seu amado. Após algum tempo conversando, Aparecida ofereceu um copo de suco previamente preparado com sonífero para Juca, que logo adormeceu. Zuleide o levou até a cama e tirou sua roupa para simular que eles teriam mantido relações sexuais. Naquela época, a honra de uma moça estava na sua virgindade, e caso um rapaz a tirasse teria que casar. Dessa forma, pensava Zuleide, Juca seria obrigado a casar-se com ela. Quando Juca acordou, meio atordoado, foi logo perguntando onde estava e o que tinha acontecido. Zuleide estava ao seu lado, fingindo ter acabado de acordar de um sono profundo. Zuleide acariciou o rosto de Juca e lhe explicou que eles estavam conversando quando aconteceu de os dois terem feito amor, de maneira que agora teriam que se casar.

Seu Inácio não gostou nada da situação, colocando Zuleide para fora de casa. Ela foi morar na casa de sua tia Teodora. Pouco tempo depois, o casamento foi providenciado e Zuleide estava toda feliz por seu plano ter dado certo. Poucas pessoas da família dela compareceram ao casamento, pois sabiam de toda a armação que ela tinha feito para casar com Juca.

A verdadeira história de Zuleide e Juca começou naquele dia chuvoso e muito frio, em que dormir abraçados seria o ideal para recém-casados. Isso não estava nos planos de Juca: a noite de núpcias ele passou com Zuleide, só de tristeza e infelicidade por se casar com uma mulher que não amava.

O tempo passou, mas essa realidade não mudou. Com quase 18 anos de casada e dois filhos, Zuleide não se conformava com Juca não a amar, e sua frustração a levou à depressão, e constantemente ela tomava fortes medicamentos e recebia tratamento em clinicas psiquiátricas, enquanto Juca bebia e se envolvia com muitas mulheres, imaginando que isso faria com que Zuleide saísse da sua vida e o deixasse em paz. A doença de Zuleide foi se agravando e ela precisou ser internada em uma clinica de reabilitação. Nesse período Juca se envolveu em mais uma de suas aventuras, e foi morar com Luize, sua antiga vizinha, em outra cidade, levando consigo seus dois filhos. Após dois anos internada sem receber quaisquer visitas, chegara enfim o momento de Zuleide receber alta. Ela imaginava que aquele tempo havia sido suficiente para que tudo se resolvesse e ela pudesse voltar para casa e viver feliz com sua família.

No dia que Zuleide chegaria à sua casa, tudo que ela mais esperava era reencontrar seu esposo e seus filhos. Ao descer da ambulância ela teve uma grande e desagradável surpresa: sua casa estava escura e sombria; não havia ninguém à sua espera. Um eterno vazio invadiu seus pensamentos. Ela se sentia em um verdadeiro abandono.

– Agora não tenho ninguém, pensou ela em sua solidão.

A angústia tomou conta de Zuleide e um forte e irreprimível desejo veio em seu coração: morrer.

– Morrer! Sim, é a melhor escolha, pensou Zuleide em meio às lágrimas.

– Já não tenho mãe, meu pai também morreu, meus filhos e meu marido me abandonaram…

Assim, se sentindo no meio do nada, planejou sua morte, decisão que foi confirmada após dois dias em casa sem que ninguém aparecesse para visitá-la. Não tendo mais esperança, pensou em uma maneira de morrer. Foi ao quintal e encontrou algumas cordas próximas à pia de lavar roupa. Escolheu a corda mais resistente para amarrar no telhado. Antes de morrer ela queria deixar suas últimas palavras. Foi até o quarto de seu filho mais velho e pegou uma caneta com a tinta já falha e um pedaço de papel sujo e borrado que encontrou no chão do quarto, e que mal dava para escrever. Suas lágrimas escorriam pelo seu rosto, molhando quase todo o papel. O bilhete de Zuleide dizia o seguinte:

Meu esposo que tanto amei e meus filhos, frutos de minha loucura.

O único meio que encontrei para libertá-los deste peso foi a morte, mas não fiquem tristes, estarei bem. Juca, perdoe-me pelo sofrimento que te fiz passar!

Filhos eu amo vocês!

Zuleide