Uma interessante – e divertida – moda está crescendo no mundo literário anglo-saxão. Muito melhor do que autoficção e representatividade, questões amplamente não-literárias que transformaram a literatura brasileira em um longo e enfadonho desfile de platitudes, egos e estatísticas.

Ela começou com uma reflexão sobre as regras de escrita de Elmore Leonard. São regras bem práticas, bem diretas e dizem respeito ao ato de escrever qualquer história. Por exemplo, a primeira regra é “Nunca comece um livro descrevendo o tempo”. A segunda é “Evite prólogos”, e por aí as regras seguem.

O escritor Marc Laidlaw levou adiante as ideias de Elmore Leonard e tirou a ênfase da primeira frase da história, passando para a segunda:

The first line of almost any story can be improved by making sure the second line is, "And then the murders began."

— Marc Laidlaw (@marc_laidlaw) March 3, 2017

De acordo com ele, a primeira frase de quase todas as histórias pode ser melhorada se a segunda for “E então os assassinatos começaram”.

Isso gerou uma onda de escritores imaginando histórias em que a segunda frase seria obrigatoriamente “E então os assassinatos começaram”.

He was an old man who fished alone in a skiff in the Gulf Stream and he had gone 84 days without taking a fish. And then the murders began. https://t.co/IRlMLs1OdL

— Darryl Daugherty, PI K.Err. (@DarrylDaugherty) March 3, 2017

No one who had ever seen Catherine Morland in her infancy would have supposed her born to be an heroine. And then the murders began.

— Neil Gaiman (@neilhimself) March 3, 2017

Também deixa qualquer história infantil mais interessante:

Mr & Mrs Dursley, of number 4, Privet Drive, were proud to say they were perfectly normal, thank you very much. And then the murders began. https://t.co/WbbBuyehqU

— Kyle Treasure (@KyleTreasure) March 3, 2017

Um exercício de criação literária sendo feito ao vivo e com a participação da imaginação de centenas de leitores, eis o que deixa a literatura viva e interessante.

Tenho falado muito com outros escritores sobre os motivos pelo qual a literatura é tão pouco consumida no Brasil, e uma das conclusões a que cheguei é que, no nosso país, a literatura deixou de ser arte e virou palanque para tantas causas que as pessoas passaram a considerá-la panfletária.

Tiraram toda a graça de escrever e ler uma boa história. Hoje, todos leem livros esperando que, em algum momento, ao estilo dos antigos contos de fadas, alguém vai aparecer e dizer qual a moral da história. Ou, pior ainda, leem o livro julgando o tempo inteiro a sombra que deveria pairar quase invisível por trás dele: o seu autor.

Está bem chato escrever no Brasil atual. É como carregar uma granada sem pino no meio de um campo de batalha, sabendo que, a qualquer deslize ou distração, ela pode explodir nas nossas mãos. Por enquanto ainda tive sorte, mas mesmo ela eventualmente acabará e, se existe algo que me consola é saber que, se esse dia chegar e a literatura virar não mais liberdade, mas medo, eu vou recolher-me à minha escrivaninha e continuar escrevendo em silêncio. À esta altura do campeonato, escrever não é algo que preciso tanto de outras pessoas, é mais uma questão interna do que uma necessidade de exposição.

Meu dever único é ser fiel à história. Sem concessões, sem medos. Mesmo que ninguém a leia e mesmo que eu seja julgado pelo o que digo ou pelo o que omito. Se for para escrever com medo do leitor, melhor nem escrever, até por que cada leitor vai pensar uma coisa diferente e nunca agradarei a todos.

Por isso acho relevante esse desafio literário que circula nos Estados Unidos e na Inglaterra. Parece mais importante do que discutir uma série de questões paralelas à Literatura. É um exercício de criação brejeiro e divertido, tudo aquilo que devia ser importante para nós e estamos fazendo cada vez menos. Isso por que escrever devia ser algo divertido, não a chatice que se tornou. Então, enquanto não me cercearem de vez, prosseguirei escrevendo e me divertindo, pensando em assassinatos escondidos dentro de cada livro.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo