“Ao ler um romance, qualquer romance, temos de saber perfeitamente bem que a coisa toda é absurda, e então, enquanto lemos, acreditar em cada palavra. Finalmente, quando terminarmos, podemos descobrir – se o romance for bom – que estamos um pouco diferentes do que éramos antes da leitura; que fomos, de alguma forma, transformados, como se tivéssemos conhecido um rosto novo ou atravessado uma rua que nunca atravessaríamos antes. Mas é muito difícil dizer exatamente o que aprendemos, como fomos transformados.” (Ursula K. Le Guin, p.9)
É, efetivamente, muito difícil dizer como a leitura de “A mão esquerda da escuridão” me transformou. Sou (fui) uma fã relutante da ficção científica, e por muito tempo conheci apenas as distopias. E este foi meu primeiro contato com a prosa de Le Guin. Livro que me conquistou já no prefácio, de onde tirei o parágrafo que abre este post.
A história de “A mão esquerda da escuridão” se passa no planeta Gethen, conhecido pelo Ekumen – uma espécie de ONU da raça humana – como Inverno. Para integrá-lo ao Ekumen, Genly Ai é enviado como “Primeiro Móvel”, embaixador da missão. Em Gethen, estamos em plena Era Glacial, e os humanos estão acostumados ao frio extremo. São também fisiologicamente únicos, contendo em seu ser a essência do masculino e do feminino.
Mesmo há dois anos nesta terra estranha, Genly Ai, originário do planeta Terra, tem dificuldades em entender as intrincadas relações sociais de Gethen. Ele lida diariamente com sua dificuldade em entender suas relações de prestígio, sua ambiguidade sexual, seus conceitos de honra e religião, mesmo suas estações do ano. Entre os seus guias nessa jornada de conhecimento, ele conhece Therem Harth rem ir Estraven, Primeiro Ministro de Karhide.
Contada através de vários narradores, o ponto de vista da história é sempre o do estranho, do alienígena. Ora Genly Ai discorre sobre a vida em Gethen, e observa Estraven; ora Estraven trata da natureza de Genly. Mesmo as lendas e mitologias da região são narradas pelo ponto de vista estrangeiro. Esta visão de fora dá uma verossimilhança ímpar à história. O fato de não entendermos completamente esta civilização alienígena faz com que possamos imaginá-la num planeta remoto, ainda não descoberto. E é uma cultura rica, que nos faz pensar sobre nossa própria, nosso dualismo, nossa necessidade por respostas, a influência de nossa sexualidade nas relações sociais.
A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO
Ursula K. Le Guin
Tradução: Susana Alexandria
296 Páginas
Preço Sugerido: R$ 42,00
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Uma menina com histórias pra contar...