Eu não conhecia o trabalho de Tom Hart até ter contato com Rosalie Lightning, um memorial sobre a filha do autor, que faleceu sem explicação antes mesmo de completar dois anos de idade. O autor concorreu com essa obra ao Prêmio Eisner em 2017. Além disso, é Best Seller #1 do The New York Times. Tudo, certamente, muito merecido, na minha opinião. Semanas depois de ter finalizado esse livro, ainda sinto dificuldades de falar sobre ele. Ainda sinto que invadi a cabeça e o coração de Hart, de certa forma, de tão pessoal e dolorosa que é essa história.
A narrativa mescla passado e presente, mas sem seguir uma ordem cronológica. Ao mesmo tempo em que nos mostra recordações felizes da época em que Rôzi ainda era viva, também nos mostra o presente cheio de escuridão sem a presença dela. Um filho muda a vida de qualquer pessoa, não é difícil imaginar. Também não é difícil imaginar que, depois do nascimento de um filho, os pais passam a se perguntar como puderam viver tanto tempo sem aquele serzinho. Perdê-lo, então, deve ser uma dor terrível, insuportável, e Tom Hart consegue evidenciar esse sentimento de forma magistral.
Então, sim, Rosalie Lightning é um quadrinho sobre dor, sobre como é viver — ou existir — após perder um filho. Mesmo as memórias felizes são tristes, porque sabemos o que vem depois. Portanto, já gostaria de avisar que não indico essa história para pessoas que perderam algum ente querido recentemente, ou pessoas com algum quadro de depressão e/ou ansiedade, porque a quantidade de gatilhos é gigantesca. É uma história pesada, forte, extremamente angustiante, e não existe nenhum final feliz. Rosalie nunca vai voltar a viver, não é mesmo?
Eu não deixei de chorar em uma passagem sequer. É muito, muito desesperador ver Tom e Leela, sua esposa, procuram em qualquer coisa uma explicação por Rosalie ter partido tão cedo. Seus desenhos mostram espetacularmente essa sensação de sufocamento, que é transmitida para o leitor muito facilmente. Eu me senti sufocada, eu procurei respostas o tempo inteiro. E é realmente uma situação angustiante, porque nada do que qualquer pessoa faz ou fale ajuda a diminuir o sofrimento dos dois. Nada pode apagar a perda de um filho.
Existe uma cena bem no final do livro que me marcou muito, que é quando uma criança de três anos que Tom nunca viu na vida pede para dar um beijo no rosto dele. Para mim, foi como se Rôzi tivesse enviado esse beijo para ele, pra provar que ela está com ele independente de qualquer coisa, que a memória dela nunca vai morrer. Foi a parte que mais me emocionou, eu não conseguia parar de chorar. Foi só aí que tive certeza de que Rosalie Lightning seria favoritado, não necessariamente porque eu chorei, mas porque vou lembrar dessa passagem para o resto da minha vida.
Só consigo admirar Hart pelo seu trabalho. Não sou especialista, mas acredito que é preciso muita coragem para falar tão abertamente, para o mundo inteiro, sobre uma perda tão grande, sobre um sofrimento tão grande. Não é uma história bonita, mas é tocante e emocionante, honesta e devastadora. Só queria dizer que a breve vida de Rosalie ficará no meu coração para sempre, e torço para que deixe algo de bom em todos vocês também.
Título Original: Rosalie Lightning: A Graphic Memoir
Autor: Tom Hart
Páginas: 272
Tradução: Érico Assis
Editora: Nemo
Livro recebido em parceria com a editora
