Luís da Silva, o protagonista de Angústia, inicia sua narrativa em primeira pessoa evidenciando que ele é um homem comum, pobre, funcionário público e morador de uma pensão em Maceió. No entanto, Luís insere flashbacks e reflexões em sua narrativa que conseguem transportar o leitor para a sua mente. E que mente é essa? Utilizando-se do recurso narrativo de fluxo de consciência, a leitura vai tomando proporções e profundidades inesperadas.
O fluxo de consciência é um recurso que costuma ser associado a uma leitura truncada e lenta. Porém, depois que o leitor consegue entrar no ritmo do narrador, é perfeitamente possível prosseguir na leitura com tranquilidade. Luís mistura fatos atuais com memórias e com reflexões, o que é muito interessante por permitir que o leitor veja a vida que Luís tinha durante a infância e compreenda como as coisas mudaram tanto para ele, especialmente no quesito financeiro.
Mas, afinal, o que acontece nessa história? É difícil falar sobre esse livro porque qualquer coisa pode ser spoiler. Basicamente, o livro começa despretensiosamente, narrando os acontecimentos da vida do protagonista até o momento em que ele conhece Marina, uma moça por quem ele se apaixona. Esse é o primeiro grande momento do livro, que é seguido por outros dois momentos importantes, culminando no clímax. Todos esses momentos envolvem Marina, mesmo que indiretamente.
Confesso que o clímax do livro foi completamente inesperado pra mim e me surpreendeu de forma positiva. Eu não esperava que o livro fosse tomar esse rumo. Até a metade do livro, as coisas são bem mornas e confesso que, apesar de interessante, o livro não tinha conseguido me conquistar completamente. Porém, quando a história vai tomando forma tudo fica mais interessante.
E o título do livro também faz todo o sentido. A angústia é um sentimento bastante presente durante a narrativa de Luís e isso também se transfere ao leitor, que sente essa angústia junto com o personagem. Angústia que, inclusive, me lembrou muito Crime e Castigo, do Dostoiévski. Essas duas leituras me despertaram sensações parecidas, especialmente ansiedade.
É sempre digno de nota quando um livro desperta emoções em nós e isso é algo que eu admiro muito. Angústia é um livro que possui uma atmosfera de angústia. É difícil explicar, mas sentir é inevitável. Eu não simpatizei com nenhum personagem do livro. Mas isso foi indiferente ao longa da leitura. Esse é um livro que te conquista de outras formas.
A edição está muito bonita. As cores e a arte da capa estão lindíssimas e traduzem bem o clima do livro. Foi uma leitura rápida pra mim, mas, confesso que teve momentos em que eu não estava curtindo muito a leitura. Apesar de não ter encontrado dificuldades, teve momentos em que a história estava chata e me fez ter vontade de pular algumas páginas. Mas valeu a pena pelos momentos de importância e pelas reviravoltas.
Essa quebra de padrões narrativos não se dá apenas pela narrativa em fluxo de consciência, esse também é um romance circular, ou seja, ele termina onde começa. Então, depois de ler as últimas páginas, é comum você ficar sem entender muito bem o final. Aí é só voltar e reler as primeiras páginas do livro de novo. É nas primeiras páginas que se dá o fim do livro. Por isso que, no começo, essa leitura parece ser difícil. Genial, né?!
Eu gosto muito de fluxo de consciência, pois esse recurso narrativo sempre me faz perceber o quanto de vida cabe em tão pouco tempo. A vida também acontece na nossa mente, na nossa imaginação, nas coisas que pensamos, lembramos e sentimos. E isso é maravilhosamente complexo. Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf, me deu essa mesma sensação. Então, se você quer uma leitura profunda com uma narrativa diferente, eu recomendo Angústia.
Título Original: Angústia
Autor: Graciliano Ramos
Páginas: 336
Editora: Record
Livro recebido em parceria com a editora
