Imagine poder viajar no tempo para assistir a qualquer grande show da história: os Beatles no Shea Stadium ou no telhado da Apple Records, o Nirvana em um bar minúsculo de Seattle ou Miles Davis no lendário clube Birdland. A norte-americana Mo Daviau transformou esse desejo em realidade no engenhoso 30 e poucos anos e uma máquina do tempo, uma espécie de cruzamento entre De volta para o futuro e Alta fidelidade protagonizado por Karl e Wayne, dois amigos de meia-idade que descobrem um meio de voltar no tempo para assistir a shows incríveis, e a ganhar dinheiro com o negócio. Tudo vai bem até que Wayne decide o óbvio: interferir no passado. Afinal, quem dispensaria a chance de reescrever uma ou outra linha da própria história? Movido a música e romance, 30 e poucos anos e uma máquina do tempo é uma espirituosa, e um tanto nostálgica, reflexão sobre sonhos, escolhas de vida e a passagem do tempo.

Título Original: Every Anxious Wave

Autora: Mo Daviau

Páginas: 304

Tradução: Edmundo Barreiros

Editora: Fábrica 231
Livro recebido em parceria com a editora

Sempre que tenho a oportunidade de ler algum livro onde a música está presente, leio. Adoro ver as músicas ou músicos que já conheço contextualizadas em uma história, da mesma forma que amo conhecer novos sons. 30 e Poucos Anos e Uma Máquina do Tempo é uma leitura satisfatória, mas que acabou me decepcionando em alguns pontos. É aquela velha história de ir com muita sede ao pote...

Neste livro, conhecemos a história de um ex-guitarrista de sucesso, Karl Bender, agora dono de um bar em Chicago. Ele e seu amigo Wayne DeMint são almas gêmeas no quesito solidão e decadência, porém a vida dos dois dá uma guinada quando Karl descobre um buraco em seu armário que o faz voltar no tempo. Wayne, que é um ótimo programador, ajuda o amigo criando um software que possibilita que qualquer pessoa viaje no tempo, com o bônus de conseguir escolher a data e o local.

Apesar de o intuito da máquina do tempo ser apenas para as pessoas conseguirem assistir aos shows dos seus ídolos no passado (apenas assistir, nada de fazer interferências ou contato com as pessoas), Wayne acaba pedindo para Karl enviá-lo ao ano de 1980 para impedir o assassinato do Jonh Lennon. Seria um sonho — ou não, já que para cada ação há uma reação — se Karl não tivesse errado a data e enviado o amigo para 980, deixando-o preso num passado tão distante que ainda não existia civilização.

30 e Poucos Anos e Uma Máquina do Tempo é narrado em primeira pessoa por Karl, um personagem super egoísta e babaca que se alimenta do seu passado, mas a escrita da autora é tão gostosa que dá pra ignorar o fato de o personagem principal possuir características tão negativas — coisa que, dependendo do autor, pode deixar a narração cansativa e maçante. Apesar disso, a história começa a acontecer de verdade no momento em que Wayne e enviado ao passado por engano, gerando várias consequências indesejadas. O livro é, basicamente, uma sucessão de viagens no tempo que geram consequências e reflexões. 

Para falar a verdade, essa parte de viagens do tempo e o que pode mudar no presente quando se altera alguma coisa no passado é um tema que me agrada demais. O que me incomodou desde o início da leitura é que Mo Daviau não se importa e dar explicações, para ela, as coisas acontecem e pronto. É claro que dado o gênero do livro, isso provavelmente não fará muita diferença para a maioria das pessoas que lerem, mas pessoalmente gosto das coisas explicadinhas, principalmente quando há teorias que já existem envolvidas. 

Também achei que os personagens, apesar de mostrarem pontos em comum em suas vidas, poderiam ter sido um pouco mais desenvolvidos. Particularmente a personagem que mais chama atenção é Lena, uma física que entra na história com o intuito de consertar a bagunça que Karl e Wayne fizeram. Ela é ótima, luta com todas as forças para conseguir alcançar os seus desejos e é isso o que mais me admira em personagens femininas.  

O mais legal é que 30 e Poucos Anos e Uma Máquina do Tempo é aquele tipo de livro que pode dar errado em vários sentidos, mas acaba funcionando porque tem o intuito de divertir, de ser leve, nada de muitas complicações. É claro que eu esperava um pouco mais do livro justamente por causa do tema, mas possui um saldo geral positivo que faz a leitura valer a pena.