Já ouvi muito falar sobre Downtown Abbey, série de TV criada por Julian Fellowes, mas só tive real curiosidade de assistir depois de começar a ler Belgravia, escrito pelo mesmo autor e publicado este ano pela Editora Intrínseca. Imediatamente notei algumas semelhanças na construção de ambas as histórias e, apesar de só ter visto o primeiro episódio da versão televisiva, tenho a impressão de que, se a experiência for semelhante à da leitura do livro, Julian Fellowes entrará na lista de autores históricos favoritos sem qualquer dificuldade.
O enredo de Belgravia tramita pela complexa constituição social existente no século XIX e, para bem ilustrar todas as suas ramificações, o autor não se esquiva de criar dezenas de personagens diferentes, cada um deles bem desenhado e abordado. Claro que pode parecer confuso, inicialmente, tentar compreender tantas personalidades diferentes, mas com o passar das páginas Fellowes mostra que cada detalhe foi bem planejado e que, de alguma forma, todos estão interligados. O autor consegue dar consistência às ações dos personagens, motivar suas decisões e especificar seus sentimentos de uma forma como pouco se vê na literatura, especialmente porque não se concentra em um ou dois personagens principais, mas o faz com todos os envolvidos na trama que criou.
Um dos aspectos mais interessantes do livro é a clara distinção entre as classes sociais existente à época. É nítida a diferenciação entre senhores e criados e, mesmo dentro de cada classe dessas, há ainda subdivisões intransponíveis, como em um critério de castas em que, independente da situação financeira ou da posição que ocupa, só é possível fazer parte pela loteria do nascimento.
Como a estruturação do mundo deles era estranha... Uma moça de vinte e poucos anos era o auge da ambição social. Estar na presença de uma jovem dessas era o ponto alto que buscavam homens como James, inteligentes, talentosos, bem-sucedidos, como se isso fosse um coroamento glorioso depois de uma vida de sucesso. Mas o que a moça tinha feito? Nada. Apenas nascido.
A relação entre patrões e empregados, aliás, faz parte do contexto central da trama. Não há dúvidas das diferenças de posições e da submissão dos criados aos seus patrões, tão escancaradas na narrativa do autor, ao mesmo tempo em que as regras sociais exigem um comportamento de lealdade que é posto frequentemente à prova.
Grande parte das intrigas que dão tom ao livro enveredam por essas convenções e regramentos sociais e é interessante observar quanta coisa mudou, embora também seja possível perceber muita coisa que, ainda hoje, acontece exatamente da mesma forma, em especial no que se trata de dar importância ao que os outros pensarão.
A narrativa detalhista e quase poética também tem seu charme e combina com uma época em que vestidos, salões de bailes e aparências eram supervalorizados, e o livro não deixa de nos presentear com um belo romance, reencontros familiares e outros acontecimentos tocantes.
Nada realmente importava, não mais. Ela o amava. E ele a amava. Ela o reconhecera como seu amante. Isso era tudo o que ele precisava saber. Mesmo que ela o magoasse, teria valido a pena por aquele momento. O que aconteceria depois, ele não tinha como adivinhar, mas estava apaixonado e era correspondido. Por enquanto, isso bastava.
Belgravia tem também uma trama permeada por segredos que, muitas vezes, nem mesmo o leitor conhece. Enquanto as peças do quebra-cabeças se encaixam e mudam todas as perspectivas da história, é fácil se flagrar surpreendida pelas artimanhas de Fellowes, que traz uma peça cheia de surpresas, mesmo para os leitores mais atentos.
Gostei muito da leitura do livro e leria qualquer outra obra do autor sem pestanejar. Para quem gosta de romances históricos, Belgravia com certeza é uma ótima opção de leitura.
Título Original: Belgravia
Autor: Julian Fellowes
Páginas: 432
Tradução: Rachel Agavino
Editora: Intrínseca
