Vocês conseguem pensar em um mundo onde não é possível ver a noite? E mais que isso, a noite ser uma utopia, algo desconhecido para a população, proibida por lei? Pois é justamente esse o cenário criado por Dias Ferpella em Nictofobia, uma distopia com os dois pés nos gêneros terror e suspense. Aqui, as pessoas são obrigadas a dormir do pôr-do-sol, às 18h aproximadamente, até o amanhecer.
O mais interessante é que a população simplesmente obedece a Lei do Limiar sem questionar e as gerações que um dia puderam contemplar a luz da lua prefere não falar sobre o assunto. A única coisa que todo mundo sabe é que a noite é perigosa, sombria, nada segura para humanos. Inclusive, há vários boatos que existem seres noturnos que vagam a procura de Insones, que são as pessoas que insistem em ficar acordadas e até ousam sair para passeios durante a noite.
A trama acompanha três personagens principais: Lenny, uma rebelde que participa de um grupo que não é adepto ao toque de recolher; Lucian, um cara curioso que simplesmente estava no lugar errado, na hora errada e acaba se envolvendo num acidente; Amanda, uma agente com passado familiar inusitado que trabalha para a empresa que monitora a noite, que busca transgressores. No decorrer desses pontos de vista, somos apresentados ao universo em si, que envolve trechos narrados no passado e inúmeros personagens secundários essenciais para o desenvolvimento do livro.
Para quem lê bastante distopia, essa mistura de presente e passado não será um problema. Ainda assim, preciso dizer que o começo pode ser um pouco difícil, porque às vezes essa transição é feita várias vezes dentro de um mesmo capítulo, sem aviso prévio; portanto, requer mais atenção do leitor. O número de personagens também é bem grande — estilo O Senhor dos Anéis e Game of Thrones — e confesso que fiquei confusa no início, mas depois de pegar o ritmo consegui me conectar mais com eles e com a narrativa em si.
Por falar em narrativa, fiquei impressionada pela desenvoltura de Dias Ferpella. É muito fluida e instigante, além de ser extremamente original. Já li inúmeras distopias — principalmente na época do lançamento de Jogos Vorazes, que o gênero virou uma febre — e afirmo que nunca tive contato com um livro como Nictofobia antes. Como um todo, a única coisa que senti falta foram mais explicações sobre os noturnos que tanto assombram os personagens... Inúmeras pistas são deixadas para o leitor no decorrer dos capítulos, mas sinto que ainda não sei exatamente qual a origem dessas criaturas, sabem?
Outro aspecto bastante interessante da obra é o seu teor político. Na realidade essa característica é comum em livros do gênero, mas é muito louco encontrarmos tantas semelhanças com o que acontece conosco em uma trama ficcional. Por exemplo, as autoridades falam uma coisa e todo mundo obedece, ninguém questiona nada, simplesmente aceitam aquilo como verdade: "Não pode sair à noite, é perigoso", tá bom, mas qual motivo? Tudo bem, pode ser verdade mesmo, mas o que eles escondem?
Esse mistério também dá um fôlego a mais para Nictofobia, até porque tem muitas cenas angustiantes que, de certa forma, estão envolvidas com isso. Para mim, que sou super medrosa, senti o coração apertado em inúmeras passagens, especialmente quando tinha alguma morte envolvida ou coisa do tipo. Para quem lê terror mesmo, tipo Stephen King, sei lá, deve ser fichinha, mas vocês sabem que eu não sou parâmetro de comparação, rs.
Título Original: Nictofobia ✦ Autora: Dias Ferpella
Páginas: 371 ✦ Editora: Publicação independente
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