Antes de começar a ler A Nuvem eu jurava, jurava mesmo, que Scythe era uma duologia. Não sei por que essa ideia passou pela minha cabeça, mas quanto mais eu me aproximava do fim do livro, mais percebia que não seria possível concluir a história nesse volume. Neal Shusterman tinha muita coisa para contar, muita trama para desenrolar e, com tudo o que estava acontecendo, eu fiquei chocada com a forma como essa continuação de O Ceifador terminou.
O futuro criado por Shusterman é bastante interessante, já que a tecnologia atingiu seu ápice e agora é a Nimbo-Cúmulo — a nuvem — quem governa a humanidade. Não de uma forma ruim, como estamos acostumados a ver nos filmes em que as máquinas passam a dominar, pois a Nimbo-Cúmulo é perfeita e justa. Esse contexto já havia sido mostrado no livro anterior, mas esse segundo volume aprofunda a consciência da nuvem e, mais importante, mostra as consequências da luta de Citra e Rowan contra a corrupção na Ceifa — cada um por seus próprios meios.
Se no primeiro volume a narração intercalava os pontos de vista dos dois aprendizes — que agora são ceifadores —, neste segundo livro surgem capítulos com as perspectivas de outros personagens, para mostrar os reflexos dessa luta dissimulada entre benevolência e corrupção. Assim, além de Citra e Rowan, podemos acompanhar o que acontece com diversos ceifadores, bons ou maus, e com personagens que, no primeiro volume, pareciam não ter grande relevância, como Tyger Salazar e Greyson Tolliver.
Ele não podia culpar ninguém além de si mesmo por ter depositado sua confiança em um garoto que o ceifador Faraday escolhera por sua compaixão.
Também, os capítulos são intercalados por trechos narrados pela própria Nimbo, o que ajuda a compreender suas regras e suas atitudes. É instigante observar como cada passo é calculado e como tudo tem uma razão, mesmo quando as decisões da nuvem não parecem, a primeira vista, ter qualquer sentido.
Essa dinâmica de narração dá ainda mais agilidade à trama, visto que os acontecimentos se espraiam em diversos ângulos ao mesmo tempo. São tantas tramas paralelas que o livro ganha uma complexidade inesperada, considerado seu enredo jovem, pois ainda que seja carregado de crítica social, sua trama seguia, até então, por um caminho linear. Ademais, embora dê a impressão de que está perdendo o foco de sua narrativa, é surpreendente a forma como o autor consegue unir todos esses contextos em um grande acontecimento no final.
Sobre esse acontecimento final, aliás, só posso dizer que estou até agora paralisada e angustiada para saber o que vai acontecer. Não consigo acreditar quando um livro termina assim, com tudo posto abaixo e sem respostas, na ansiedade para saber como as coisas serão resolvidas. É aquela sensação de amor e ódio ao mesmo tempo, pois o autor foi corajoso o suficiente para arriscar tudo, mas em que se sabe que o próximo passo pode fazer a história se perder. Eu espero sinceramente que não.
A Nuvem é uma trama ágil e viciante, que sabe explorar o mundo criado em suas páginas de uma forma original e única. Embora se pareça um pouco com uma fantasia, não há nada de poderes mágicos por aqui, já que trata, na verdade, de uma realidade quase possível. Além disso, nos presenteia com uma capa linda que, embora simples, é bastante representativa de sua história.
Título Original: Thunderhead
Autor: Neal Shusterman
Páginas: 496
Tradução: Guilherme Miranda
Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
