Eu não sou muito de ler de suspense e todas as suas subdivisões — não é porque eu não gosto, só prefiro algumas coisas mais leves na maioria das vezes —, mas a sinopse de Entre Quatro Paredes me fisgou completamente. Logo nas primeiras páginas a gente sabe que há algo de errado com o casamento de Grace e Jack Angel, mas sem saber exatamente o quê. Tanto que, no início, eu pensei que o livro retrataria um relacionamento abusivo, mas é muito mais do que isso. Já adianto que é impossível falar sobre esse livro sem dar alguns spoilers, então já fiquem cientes. 


Aos olhos das pessoas de fora, Grace e Jack são a personificação do casal perfeito: ela resolver deixar o emprego que sempre amou para se dedicar exclusivamente ao marido e à casa, não vai a lugar algum sem que o marido a acompanhe, não tem celular e os dois até têm um e-mail de compartilhado. Quero deixar claro que, para mim, esse casamento já estava totalmente errado a partir destes pontos, além do machismo totalmente estampado. Foi justamente por isso que eu pensei que o livro se trataria de uma esposa tentando sair de um casamento abusivo. Bom, é mais ou menos isso mesmo, mas com mais um "detalhe": Jack é um psicopata, e Grace só descobre quando já é tarde demais.

Não foi difícil me apaixonar. Havia algo de conservador no jeito de Jack que eu achava revigorante: ele abria as portas para mim, me ajudava a vestir o casaco e mandava flores. Ele fazia com que eu me sentisse especial, amada, e, o melhor de tudo, adorava Millie.

A narrativa de Entre Quatro Paredes mescla passado e presente, onde conseguimos entender como Grace caiu na armadilha de Jack e torcemos para que consiga sair dela. O Jack mostrado pela personagem principal antes do casamento realmente é o homem dos sonhos na visão de muitas mulheres, não por ser um advogado rico e famoso, mas por suas atitudes cavalheiras. Mas, na minha opinião, Jack já se mostrava abusivo e controlador desde o primeiro encontro dos dois, chegando até convencer Grace a pedir demissão do seu emprego, alem de fazê-la escolher entre ele a irmã mais nova da protagonista, Millie, que tem Síndrome de Down. O pior de tudo para mim foi Grace não conseguir enxergar que estava caindo numa cilada, mesmo se Jack não fosse um homem "normal".

Já no presente, Grace nos apresenta o verdadeiro Jack, um monstro que é capaz de matar para conseguir extrair das suas vítimas o que lhe dá prazer: o medo. Não foi muito difícil conseguir que Grace o sentisse, já que sua irmã mais nova estava na jogada desde o início. Assim, usando sua inteligência muito acima da média, Jack faz um jogo psicológico com a personagem, sem demonstrar um pingo de culpa ou remorso. Justamente por essas características, posso dizer que Entre Quatro Paredes é um livro muito envolvente. É impossível conter a curiosidade para saber o que vai ser de Grace e Millie, afinal.

Antes de compreender minha situação desesperadora, fiz vários planos para tentar fugir de Jack. Mas, no fim, não valia a pena. O preço que eu pagava ficava cada vez mais alto.

Apesar de ter gostado muito da trama criada por B. A. Paris, achei que ela forçou algumas coisas. Para começar, não sei se isso realmente acontece na vida real, mas eu nunca me casaria com uma pessoa depois de apenas três meses juntos. Ainda tiveram outros pontos no decorrer das páginas que me incomodaram também, mas o que mais me deixou "é sério mesmo que foi tão fácil assim?" foi o modo como Grace finalmente consegue sair do seu cárcere. A verdade é que muita coisa teve que dar certo logo de cara para que o plano da protagonista funcionasse, e todos nós sabemos que não é bem assim que a banda toca. 

Ainda assim, considero Entre Quatro Paredes um bom livro, porque ele faz o que provavelmente todos os apaixonados por livros amam: prende e atiça a curiosidade. Eu queria desesperadamente chegar ao final, então a autora consegue manter a cadência da história, conservando uma atmosfera angustiante mesmo com todos os furos. Vale a pena ser lido, principalmente pelo vislumbre que dá sobre relacionamentos: será que a gente realmente conhece a pessoa com quem estamos nos envolvendo? Fica aí o questionamento.

Título Original: Behind Closed Doors

Autora: B. A. Paris

Páginas: 266

Tradução: Roberto Muggiati

Editora: Record

Livro recebido em parceria com a editora